Um blog de raiz
28 Jul 2008
As histórias em quadrinhos passaram por diversas revoluções desde o seu surgimento, há quase duzentos anos.
Em cada fase, podemos encontrar autores e suas respectivas obras que quebraram paradigmas, lançaram uma nova forma de abordar a linguagem, tornaram-se divisores de águas.
No final dos anos 1980, coube a um norte-americano e a um inglês sacudirem a indústria dos quadrinhos com duas hq’s que se tornaram emblemáticas, tidas até hoje como obras de arte que estabeleceram novas regras para se contar uma boa história.
O primeiro foi Frank Miller, com a sua The Dark Knight Returns, no Brasil Batman - O Cavaleiro das Trevas, que levou o personagem de Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson a um novo patamar. Tudo de bom que Miller usou na história - que conta o retorno do velho combatente do crime após dez anos afastado das noites de Gotham - foi citado, copiado, replicado à exaustão por todo mundo, não importando o gênero.
O reflexo da abordagem do Batman feita por Miller chega agora no resgate da franquia no cinema, com Batman Begins e o mais recente Batman, O Cavaleiro das Trevas. Como personagem protagonista de histórias abertas, com uma personalidade marcante, dono de um rico universo de coadjuvantes, não é tão difícil fazer um bom filme do morcego (até o primeiro e segundo Batman, de Tim Burton, são assistíveis).
O outro autor que subverteu os quadrinhos, mas de maneira mais profunda, foi o inglês Alan Moore.
Tido como um dos maiores escritores de quadrinhos da atualidade (e é verdade!), Alan Moore será sempre lembrado por Watchmen, máxi-série em 12 capítulos que é uma verdadeira aula de como escrever uma história pós-moderna.
Watchmen é cheia de camadas, histórias dentro de histórias, colagens e referências à cultura pop, à política, ao mercado de quadrinhos, aos anos 80. Sua influência até hoje é sentida no mercado, que durante muito tempo buscou um novo “Watchmen”, sem conseguir.
Algumas das melhores histórias de super-heróis que vieram em seguida, sem a mesma profundidade e impacto, no entanto, são filhas diretas da série de Alan Moore, como A Era de Ouro, de James Robinson e Paul Smith; e O Reino do Amanhã, de Mark Waid e Alex Ross.
Com o novo hype hollywoodiano de adaptar personagens e álbuns de quadrinhos para a tela grande (com erros e acertos), a pergunta que vez ou outra voltava à tona era: e Watchmen, vai ser adaptado ou não?
Sempre tive medo ouvir a resposta “Sim, ele vai ser adaptado”. Por um simples motivo: como transpor para um filme, mesmo que ele tenha a temerária duração de três horas, todas as entrelinhas daquela história? Se não fosse uma trilogia (ou mais), como o Senhor dos Anéis, não haveria como. Eu pensei que eles iam desistir.
Mas eis que surge Zack Snider, incensado por ter feito 300, que é uma boa transposição de uma hq para o cinema, e pronto: adaptação confirmada.
Abaixo, o teaser-trailer da empreitada:
Tudo parece ok, certo? As roupas, a fiel transcrição dos quadrinhos, a narrativa, a ambientação, os cenários, as cenas de rua… O Dr. Manhattan está perfeito, Rorschach idem; o Comediante ficou a cara e os tons mais sombrios dos uniformes de Ozymandias e Nite Owl cairam bem.
Esse é o problema: tudo parece perfeito demais.
Não vou aqui dar uma de “não vi e não gostei”. Claro que vou assistir. Não acho que os trabalhos de Alan Moore sejam infilmáveis; o problema é que eles foram MAL FILMADOS, com excessão de V de Vingança, que é uma boa adaptação da série em quadrinhos e ainda consegue ser um bom cinema, inteligente e inteligível mesmo para quem nunca leu a hq.
Mas o velho bruxo inglês termina tendo razão em ser tão chato quando vemos coisas como A Liga Extraordinária e Do Inferno. Espero que nunca tentem fazer uma adaptação de Lost Girls.
Watchmen não é só uma história em quadrinhos. É uma das melhores obras literárias de ficção do século XX. Adaptar, em duas horas, uma das mais complexas obras já publicadas, é temerário.
Vamos ver no que isso vai dar.
Sphere: Related Content