Qual é o melhor escritor britânico de quadrinhos?

Depois da chamada “invasão inglesa” no mercado de quadrinhos norte-americano nos anos 80, essa pergunta é difícil de responder. Afinal, os ingleses foram responsáveis por um upgrade nas hq’s de superheróis das grandes DC e Marvel – mesmo nas histórias mais fraquinhas, eles ainda eram superiores aos colegas americanos. E a partir daí, fizeram uma revolução tambem fora do mainstream, com histórias adultas, autorais, cheias de referências pop e, em alguns casos, muito malucas.

Em uma enquete realizada no blog Roteiros de Quadrinhos (capitaneado pelo roteirista e professor universitário Ivan Carlo, identidade secreta de Gian Danton) em setembro último, Alan Moore ganhou, seguido por Neil Gaiman.

Alan Moore dispensa apresentações – mas se quiser saber mais sobre o Bruxo de Northampton, visite o site Alan Moore, Senhor do Caos (recomendadíssimo).

Ele é o cara que nos deu obras-primas como Watchmen[bb], Batman[bb]: A Piada Mortal, A Saga do Monstro do Pântano[bb] e as duas melhores hq’s do Superman em todos os tempos: Para o Homem que Tem Tudo e O Que Aconteceu com o Homem de Aço? Fora do universo dos heróis, Moore é responsável por polêmicas deliciosas como Lost Girls e Do Inferno; o épico político-anarquista V de Vingança e a viagem ácida pela mitologia de Promethea[bb], além das imperdíveis personagens de Tom Strong, Top Ten, America’s Best Comics (selo onde surgiram Greyshirt, Cobweb e outros “heróis” clássicos mooreanos). Romancista, bruxo, músico, o último trabalho de Moore é um projeto “underground” Dodgem Logic (veja o site).

Semana passada comprei um àlbum que estava namorando faz tempo: a edição 9 da série Grandes Clássicos DC, dedicada ao bruxo de Northampton. O encadernado, com 308 páginas, traz 16 hq’s escritas por Moore, e vão de clássicos como as já citadas histórias do Superman e a do Batman a pequenos contos como os da série Tales of  The Green Lanterns Corps e The Omega Men. Alguns não fedem nem cheiram, outros são clássicos instantâneos!

Os destaques são:

Para o Homem que Tem Tudo (Arte de Dave Gibbons).

A história se passa no período pré-crise (isto é, antes da DC explodir seu multiverso em 1985), onde Batman e Super-Homem mantinham uma relação de amizade mais aberta e sem as atuais desconfianças e conflitos de ideologia da atualidade. O Robin era Jason Todd (que morreu e depois ressuscitou). Começa com a dupla dinâmica e a Mulher Maravilha chegando à Fortaleza da Solidão no pólo sul para a festa de niver do Super. Ao entrarem, encontram o Homem de Aço dominado por uma planta alienígena que transforma em realidade seu maior sonho. No caso dele, o de viver em Krypton, com sua família. Tudo acontece na mente. Não tarda e logo o responsável aparece: Mongul, um antigo inimigo, dono de uma arma de guerra espacial chamada Mundo Bélico (lembra a Estrela da Morte? Igualzinha). Enquanto ele e a Mulher Maravilha saem na porrada, Batman e Robin tentam salvar o amigo, que delira numa Krypton tomada por traições políticas e conflitos familiares.

A primeira coisa que Moore faz na hq é desconstruir o idílico mundo natal do Super: Krypton tem os mesmos defeitos que qualquer sociedade e esse é um duro golpe para Kal-El. Além disso, outra desconstrução é o fato da pessoa mais fraca da equipe praticamente salvar a situação: o garoto Robin. E, por fim, nunca vimos um Superman tão agressivo e vingativo como nessa hq. Sua expressão de ódio quando ele desperta do torpor e quando queima Mongul com sua visão de calor é imperdível!

O Que Aconteceu ao Homem de Aço? (Arte de Curt Swan)

Aqui estão as duas últimas histórias do Superman antes da reformulação total por parte de John Byrne, após os eventos cataclísmicos da mega-saga Crise nas Infinitas Terra[bb]s. Para marcar a despedida, o editor convidou Alan Moore para escrever; na arte, um veterano desenhista do Superman, que marcou toda uma geração: Curt Swan.

Nesse épico, todos os maiores inimigos do Homem de Aço se reúnem para atacar de uma só vez – embora não tenham planejado nada conjuntamente! No primeiro ataque, sua identidade secreta é revelada e seus amigos passam a correr perigo. Todos são levados para a Fortaleza da Solidão, onde supostamente ficariam a salvo. No entanto, ao chegar lá, o local é isolado dentro de um campo energético impenetrável, junto com Brainiac e a Legião do Mal. Antes da batalha, Kal-El recebe a visita da Legião dos Super-Heróis, que traz um sinistro presságio. A cena de página inteira com o Super chorando é um clássico! Moore amarra todas as referências da história do Homem de Aço e, ao final, a revelação do responsável por tudo é surpreendente. Destaque para o final da hq, que Moore reutilizaria depois em sua obra-prima de superheróis, Watchmen.

A Linha da Selva (Arte de Rick Veitch)

O que fazer quando o ser mais poderoso da Terra, capaz de destruí-la em minutos com as próprias mão, perde a razão? Ou, como diria o Chapolin Colorado, quem poderá nos socorrer?

Tenso!

Infectado por um vírus vegetal nativo de seu planeta, Krypton, Kal-El começa a ter alucinações e a perder o controle dos seus poderes. Sentindo a morte se aproximar, o Homem de Aço se afasta da cidade… de automóvel. No caminho, termina se acidentando e é resgatado pelo elemental conhecido como Monstro do Pântano. A batalha pela sanidade do Superman é relatada de maneira brilhante por Moore, à vontade com o personagem que ajudou a resgatar do limbo na clássica Saga do Monstro do Pântano. Uma pequena grande história!

Breves Vidas (Arte de Kevin O’Neill) – 4 páginas

Um Mundo de Homens (Arte de Paris Cullins)  – 4 páginas

Na Noite Mais Densa (Arte de Bill Willingham) – 6 páginas

Três pequenas grandes histórias! Nestes contos (os dois primeiros da série The Omega Men e a ultima de Tales of The Green Lantern Corps), Alan Moore trabalha com três temas distintos na superfície, mas um tema geral de fundo: diversidade!

Em Breves Vidas, conhecemos a Guilda das Aranhas, uma raça predadora que invade mundos e se instala como um vírus, destruindo a cultura local. No entanto, alguma coisa deu errado na invasão do planeta Ogyptu, na constelação de Vega, que começou trinta anos atrás. O problema é que os seres gigantes de Ogyptu vivem num momento temporal diferente: para a Guilda das Aranhas, uma piscadela de um deles levou dez anos para ser concluída. E agora, como conquistar uma raça que não consegue perceber o invasor? O resultado é hilariante!

Uma das regras invioláveis de um antropólogo é a de não interferir/interagir na sociedade estudada. Deve-se apenas observar e registrar. Infelizmente, para a antropóloga Leelyo, a paixão por Mopi, um dos nativos do planeta Culacao, da constelação Vega, não poderia acabar bem. Sem compreender como os culacaonos se reproduzem, já que só existem machos na sociedade, Leelyo, cheia de tesão até o teto, propõe a Mopi um experimento. “Como deve imaginar, isto vai contra todas as regras de conduta profissional estabelecidas pela antropologia intersistemas, embora eu deva encarar o procedimento como um exame cultural em profundidade.“, diz, logo após entrar na cabana do culacaono, toda se oferecendo. O final? Só vendo para crer…

Em Na Noite Mais Densa, Katma Tui, uma Lanterna Verde, é enviada pelos Guardiões (aqueles anões azuis com cabeção) numa missão para encontrar um novo soldado para a Tropa dos Lanternas Verdes. Num setor do universo conhecido como Profundezas Obsidianas, onde não existe qualquer tipo de luz, Katma encontra o planeta e o indicado pelo anel: Rot Lop Fan. No entanto, ela se depara com uma grande dificuldade: como explicar para um ser que vive na escuridão, que não tem olhos e que apenas utiliza os sentidos da audição e do tato, o conceito por trás dos anéis de poder dos Lanternas Verdes? Como fazer com que ele use uma arma que cria IMAGENS DE LUZ SÓLIDAS com a força do pensamento, se ele não sabe o que é… luz? Um desafio e tanto, numa hq em que Moore brinca com linguagem e as diferentes formas de se expressar. Destaque para a nova versão do juramento dos Lanternas Verdes sem nenhuma menção à luz!

A Piada Mortal (Arte de Brian Bolland)

A história definitiva do conflito entre Batman e Coringa e, de quebra, a origem do palhaço do crime. Prá variar, o Coringa foge do Arkham. Só que seu plano da vez não é roubar ou matar; ele simplesmente quer provar que basta um dia ruim na vida de uma pessoa normal para que ela fique louca. Foi assim com ele e com o Batman, não foi? Para isso, ele sequestra o Comissário Gordon e deixa Bárbara, sua filha, paraplégica. Em cortes cinematográficos, a origem do Coringa é revelada em detalhes. A história do Coringa é contada em tons monocromáticos e a passagem de um tempo para outro é feita por quadrinhos gêmeos, isto é, a imagem de um é imediatamente “clonada” no outro, mudando-se apenas os personagens e a cor. E não, isso não é um recurso do desenhista. Moore é famoso por detalhar tudo em seus roteiros. E a hq termina de maneira inusitada, com o morcego e o palhaço rindo debaixo da chuva de uma piada ruim. Dava um filmaço.

Além desses destaques, temos histórias com o Arqueiro Verde, Vigilante e Vingador Fantasma, além de uma curtinha do Batman enfrentando o Cara de Barro – esta última, uma das hq’s que li na juventude e que me fizeram ter certeza de que Batman também é doente.

Para quem quiser conhecer mais obras de Alan Moore, visite a seção dele no Submarino.

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