As histórias em quadrinhos passaram por diversas revoluções desde o seu surgimento, há quase duzentos anos.

Em cada fase, podemos encontrar autores e suas respectivas obras que quebraram paradigmas, lançaram uma nova forma de abordar a linguagem, tornaram-se divisores de águas.

No final dos anos 1980, coube a um norte-americano e a um inglês sacudirem a indústria dos quadrinhos com duas hq’s que se tornaram emblemáticas, tidas até hoje como obras de arte que estabeleceram novas regras para se contar uma boa história.

O primeiro foi Frank Miller, com a sua The Dark Knight Returns, no Brasil Batman – O Cavaleiro das Trevas, que levou o personagem de Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson a um novo patamar. Tudo de bom que Miller usou na história – que conta o retorno do velho combatente do crime após dez anos afastado das noites de Gotham – foi citado, copiado, replicado à exaustão por todo mundo, não importando o gênero.

O reflexo da abordagem do Batman feita por Miller chega agora no resgate da franquia no cinema, com Batman Begins e o mais recente Batman, O Cavaleiro das Trevas. Como personagem protagonista de histórias abertas, com uma personalidade marcante, dono de um rico universo de coadjuvantes, não é tão difícil fazer um bom filme do morcego (até o primeiro e segundo Batman, de Tim Burton,  são assistíveis).

O outro autor que subverteu os quadrinhos, mas de maneira mais profunda, foi o inglês Alan Moore.

Tido como um dos maiores escritores de quadrinhos da atualidade (e é verdade!), Alan Moore será sempre lembrado por Watchmen, máxi-série em 12 capítulos que é uma verdadeira aula de como escrever uma história pós-moderna.

Watchmen é cheia de camadas, histórias dentro de histórias, colagens e referências à cultura pop, à política, ao mercado de quadrinhos, aos anos 80. Sua influência até hoje é sentida no mercado, que durante muito tempo buscou um novo “Watchmen”, sem conseguir.

Algumas das melhores histórias de super-heróis que vieram em seguida, sem a mesma profundidade e impacto, no entanto, são filhas diretas da série de Alan Moore, como A Era de Ouro, de James Robinson e Paul Smith; e O Reino do Amanhã, de Mark Waid e Alex Ross.

Com o novo hype hollywoodiano de adaptar personagens e álbuns de quadrinhos para a tela grande (com erros e acertos), a pergunta que vez ou outra voltava à tona era: e Watchmen, vai ser adaptado ou não?

Sempre tive medo ouvir a resposta “Sim, ele vai ser adaptado”. Por um simples motivo: como transpor para um filme, mesmo que ele tenha a temerária duração de três horas, todas as entrelinhas daquela história? Se não fosse uma trilogia (ou mais), como o Senhor dos Anéis, não haveria como. Eu pensei que eles iam desistir.

Mas eis que surge Zack Snider, incensado por ter feito 300, que é uma boa transposição de uma hq para o cinema, e pronto: adaptação confirmada.

Abaixo, o teaser-trailer da empreitada:

Tudo parece ok, certo? As roupas, a fiel transcrição dos quadrinhos, a narrativa, a ambientação, os cenários, as cenas de rua… O Dr. Manhattan está perfeito, Rorschach idem; o Comediante ficou a cara e os tons mais sombrios dos uniformes de Ozymandias e Nite Owl cairam bem.

Esse é o problema: tudo parece perfeito demais.

Não vou aqui dar uma de “não vi e não gostei”. Claro que vou assistir. Não acho que os trabalhos de Alan Moore sejam infilmáveis; o problema é que eles foram MAL FILMADOS, com excessão de V de Vingança, que é uma boa adaptação da série em quadrinhos e ainda consegue ser um bom cinema, inteligente e inteligível mesmo para quem nunca leu a hq.

Mas o velho bruxo inglês termina tendo razão em ser tão chato quando vemos coisas como A Liga Extraordinária e Do Inferno. Espero que nunca tentem fazer uma adaptação de Lost Girls.

Watchmen não é só uma história em quadrinhos. É uma das melhores obras literárias de ficção do século XX. Adaptar, em duas horas, uma das mais complexas obras já publicadas, é temerário.

Vamos ver no que isso vai dar.

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