Um blog de raiz
10 Jun 2008
O que é arte?
Se, conforme a máxima de Duchamp, “é arte tudo o que alguém chama de arte”, então tudo é arte e nada é arte, dependendo do ponto de vista de cada um.
Não há limites para a definição de arte nesses tempos pós-modernos. Na arte contemporânea, tudo é permitido; então, parafraseando Dostoiévsky, para a arte contemporânea Deus está morto.
A cada novidade da arte contemporânea, as pessoas comuns têm um ataque epiléptico. É compreensível. Se a arte moderna já as assustava, podemos esperar outra reação diante do que se vê hoje em dia?
O que perturba aos não-iniciados é que os seus referenciais tradicionalistas acerca do que seja arte estão sendo destruídos; se elas não entendem porquê um quadro cubista de Picasso é uma obra de arte, imagina ao se deparar com obras como a do artista plástico Rodrigo Braga, o homem que virou cachorro.
Apesar de tanto tempo, ainda encontro pela internet e nos jornais referências (sempre polêmicas) a esse jovem artista pernambucano. E toda essa polêmica em torno do seu nome rende por causa de sua obra Fantasia de Compensação, de 2004, onde, através de manipulação digital, o artista se funde à cabeça de um cachorro morto, numa metamorfose perturbadora.
Nesse texto, Rodrigo relata todo o processo da feitura de sua obra, desde a concepção até a parte operacional, justamente a que mais choca as pessoas: a manipulação de um cão morto.
Curioso é que, quando foi lançada em 2004, a obra rendeu discussões e debates, mas não aconteceram repercussões negativas; depois de quatro anos viajando pela internet, começaram a surgir manifestações contrárias à obra e ao artista, principalmente de associações protetoras de animais; diante da repercussão negativa tardia, o artista teve que incluir uma nota de esclarecimento em seu site, onde conta como conseguiu o animal e explica que não foi o responsável pela sua morte.
Dono de um trabalho que usa basicamente manipulação digital de fotografias e questões ligadas ao corpo, Rodrigo Braga tem outras obras que também podem causar um certo desconforto no espectador, como em Unha e Carne {2000-2001}, Risco de Desasossego, {2004} e Sem Título {2005}.
Numa rápida pesquisa no Google por “Fantasia de Compensação” você encontra desde análises estéticas sobre a obra até críticas de associações protetoras dos direitos dos animais, passando pela indignação descontextualizada do internauta que pega o bonde andando e diz coisas como “o retardado costurou nele mesmo? esse cara só pode ser um imbecil, por deus do céu“, encontrada num tópico intitulado “Artista se aproveita de cachorro para fazer máscara“, num fórum sobre o jogo online Tibia.
Em um dos seus trabalhos posteriores à polêmica série de fotografias, o artista provoca seus críticos com Da Compaixão Cínica, onde mais uma vez restos mortais de animais são expostos; só que desta vez, os animais são aqueles que nós, homens carnívoros, matamos para nos alimentar: bovinos, aves, peixes.
Em 2006, outro animal surge na série de fotografias Comunhão.
Em alguns momentos, a arte contemporânea me surpreende com propostas ousadas e que levam à reflexão, à construção de um olhar/pensar crítico sobre a sociedade, sobre o homem e seus complexos. E assim como na arte abstrata, eu só vim respeitar a arte contemporânea depois que entendi o que ela queria dizer.
No entanto, justamente por ter esta compreensão, algumas obras abstratas para mim soam como verdadeiros embustes, talvez porque sejam isso mesmo; da mesma maneira, algumas propostas da arte contemporânea me fazem rir ou simplesmente ficar indignado.
No caso de Fantasia de Compensação, num primeiro momento achei doentio. Me incomodei muito com as fotos da dissecação do cachorro; mas, depois, achei que o resultado da manipulação digital ficou muito bom. Essa contradição fez minha cabeça explodir.
Mas aí esqueci e deixei prá lá.
Quatro anos depois, com as notícias da repercussão negativa {e tardia} à obra, talvez puxada pela polêmica instalação do artista Guillermo Habacuc, que deixou um cachorro vira-lata, doente e esfomeado, amarrado em uma sala de uma galeria de arte de Manágua, na Nicarágua, tentei ver a obra com novos olhos.
A conclusão é que meu olhar permaneceu velho para esta obra do artista e, assim, continuo sem aceitá-la; por outro lado, novos olhares se abriram para os outros trabalhos do artista, a partir da tentativa de compreender essa minha negação.
Isso não é legal? É essa justamente uma das funções da arte: o de abrir portas fechadas. Ou, como disse Paul Klee, tornar o invisível, visível?
E você, leitor, qual sua opinião sobre o trabalho de Rodrigo Braga e sobre toda essa polêmica?
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9 comentários para "A incrível história do homem que virou cachorro"
A incrível história do homem que virou cachorro…
O artigo discute uma obra do artista plástico Rodrigo Braga, na qual ele fixa um focinho de um cachorro morto ao seu rosto….
… e assim caminha a humanidade…
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A estupidez humana não tem limites, quando vejo esse tipo de arte (?) a única coisa que penso é na dor dos animais.
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A questão é saber para onde ela caminha, Thyago…
grande abraço!
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O caso do artista Habacuc levantou a polêmica: o cachorro morreu ou não? Como o cachorro sumiu sem deixar vestígios, a primeira conclusão foi que ele morreu. Habacuc diz que não.
Mas a pergunta central continua a mesma: a validade desse ato como uma obra de arte.
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Sinceramente, isso é mais do que estupidez. =/
Bruno, sinceramente, não importa se o cachorro morreu antes ou depois, acredito que esse Rodrigo Braga é meio retardado …
Obrigado pela divulgação dessa notícia.
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Devemos cortar a cabeça do Rodrigo Braga e, colocá-la numa exposição?…
Image via Wikipedia
Sinceramente, isso não é uma ameaça de morte, mas, pelo que ele fez com um animal (mesmo morto) é algo que a gente pode chamar mesmo de arte?
Você acharia certo pegar o corpo de um Rottweiler e, “colocá-la” em …
[...] de se fartarem com a carne de quatro bois (espero que as cabeças tenham sido escondidas do Rodrigo Braga), mais de duzentas pessoas (dos mil e quinhentos convidados) passaram mal e foram socorridos com [...]
É preciso enxergar as metáforas, os simbolismos existentes não só por trás de uma obra como o Fantasia, como por trás de qualquer imagem ou ação humana. Mesmo quando reais, os acontecimentos têm sentidos simbólicos. E são esses sentidos que formam a cultura que, retroativamente, nos forma. Ela é que dá sentido à vida. A arte, por sua vez, expande os limites da cultura ao ampliar suas concepções morais e estéticas, por exemplo. É preciso saber que existem possibilidades de existência outras além daquelas por nós sabidas…
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