Fantasia de Compensação. Rodrigo Braga. Todos os direitos reservados.

O que é arte?

Se, conforme a máxima de Duchamp, “é arte tudo o que alguém chama de arte”, então tudo é arte e nada é arte, dependendo do ponto de vista de cada um.

Não há limites para a definição de arte nesses tempos pós-modernos. Na arte contemporânea, tudo é permitido; então, parafraseando Dostoiévsky, para a arte contemporânea Deus está morto.

A cada novidade da arte contemporânea, as pessoas comuns têm um ataque epiléptico. É compreensível. Se a arte moderna já as assustava, podemos esperar outra reação diante do que se vê hoje em dia?

O que perturba aos não-iniciados é que os seus referenciais tradicionalistas acerca do que seja arte estão sendo destruídos; se elas não entendem porquê um quadro cubista de Picasso é uma obra de arte, imagina ao se deparar com obras como a do artista plástico Rodrigo Braga, o homem que virou cachorro.

Fantasia de Compensação. Rodrigo Braga. Todos os direitos reservados.

Apesar de tanto tempo, ainda encontro pela internet e nos jornais referências (sempre polêmicas) a esse jovem artista pernambucano. E toda essa polêmica em torno do seu nome rende por causa de sua obra Fantasia de Compensação, de 2004, onde, através de manipulação digital, o artista se funde à cabeça de um cachorro morto, numa metamorfose perturbadora.

Fantasia de Compensação. © Rodrigo Braga

Nesse texto, Rodrigo relata todo o processo da feitura de sua obra, desde a concepção até a parte operacional, justamente a que mais choca as pessoas: a manipulação de um cão morto.

Fantasia de Compensação. © Rodrigo Braga. Todos os direitos reservados.

Curioso é que, quando foi lançada em 2004, a obra rendeu discussões e debates, mas não aconteceram repercussões negativas; depois de quatro anos viajando pela internet, começaram a surgir manifestações contrárias à obra e ao artista, principalmente de associações protetoras de animais; diante da repercussão negativa tardia, o artista teve que incluir uma nota de esclarecimento em seu site, onde conta como conseguiu o animal e explica que não foi o responsável pela sua morte.

Fantasia de Compensação. © Rodrigo Braga

Dono de um trabalho que usa basicamente manipulação digital de fotografias e questões ligadas ao corpo, Rodrigo Braga tem outras obras que também podem causar um certo desconforto no espectador, como em Unha e Carne {2000-2001}, Risco de Desasossego, {2004} e Sem Título {2005}.

Unha e Carne. © Rodrigo Braga. Todos os direitos reservados.

Risco de Desasossego, 2004. © Rodrigo Braga. Todos os direitos reservados.

Sem Título, 2005. © Rodrigo Braga.

Numa rápida pesquisa no Google por “Fantasia de Compensação” você encontra desde análises estéticas sobre a obra até críticas de associações protetoras dos direitos dos animais, passando pela indignação descontextualizada do internauta que pega o bonde andando e diz coisas como “o retardado costurou nele mesmo? esse cara só pode ser um imbecil, por deus do céu“, encontrada num tópico intitulado “Artista se aproveita de cachorro para fazer máscara“, num fórum sobre o jogo online Tibia.

Em um dos seus trabalhos posteriores à polêmica série de fotografias, o artista provoca seus críticos com Da Compaixão Cínica, onde mais uma vez restos mortais de animais são expostos; só que desta vez, os animais são aqueles que nós, homens carnívoros, matamos para nos alimentar: bovinos, aves, peixes.

Da Compaixão Cínica, 2005.

Em 2006, outro animal surge na série de fotografias Comunhão.

Comunhão, 2006.

Comunhão, 2006.

Em alguns momentos, a arte contemporânea me surpreende com propostas ousadas e que levam à reflexão, à construção de um olhar/pensar crítico sobre a sociedade, sobre o homem e seus complexos. E assim como na arte abstrata, eu só vim respeitar a arte contemporânea depois que entendi o que ela queria dizer.

No entanto, justamente por ter esta compreensão, algumas obras abstratas para mim soam como verdadeiros embustes, talvez porque sejam isso mesmo; da mesma maneira, algumas propostas da arte contemporânea me fazem rir ou simplesmente ficar indignado.

No caso de Fantasia de Compensação, num primeiro momento achei doentio. Me incomodei muito com as fotos da dissecação do cachorro; mas, depois, achei que o resultado da manipulação digital ficou muito bom. Essa contradição fez minha cabeça explodir.

Mas aí esqueci e deixei prá lá.

Quatro anos depois, com as notícias da repercussão negativa {e tardia} à obra, talvez puxada pela polêmica instalação do artista Guillermo Habacuc, que deixou um cachorro vira-lata, doente e esfomeado, amarrado em uma sala de uma galeria de arte de Manágua, na Nicarágua, tentei ver a obra com novos olhos.

A conclusão é que meu olhar permaneceu velho para esta obra do artista e, assim, continuo sem aceitá-la; por outro lado, novos olhares se abriram para os outros trabalhos do artista, a partir da tentativa de compreender essa minha negação.

Isso não é legal? É essa justamente uma das funções da arte: o de abrir portas fechadas. Ou, como disse Paul Klee, tornar o invisível, visível?

E você, leitor, qual sua opinião sobre o trabalho de Rodrigo Braga e sobre toda essa polêmica?

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