Um blog de raiz
13 May 2008
Este artigo tem como objetivo analisar a recente produção de adaptações de quadrinhos do gênero super-heróis e identificar as proximidades e distanciamentos que estes personagens sofrem a serem adaptados para o cinema.
O Cinema e as Histórias em Quadrinhos sempre caminharam lado a lado, e a aproximação entre estas duas linguagens faz com que elas sejam consideradas irmãs. Moacy Cirne, em seu livro Quadrinhos, sedução e paixão (2003) nos lembra que “(…) é possível apontar semelhanças significativas entre elas: decupagem, cortes, planos, enquadramentos (…)” – o que me faz lembrar de Scott McCloud, ao definir, em Desvendando os Quadrinhos (1995), os fotogramas de um filme como “uma hq beeem lenta”, e da definição do quadrinho como “cineminha de papel”, comum no Brasil dos anos 1950.
A indústria do cinema, percebendo o potencial mercadológico dessas histórias ilustradas, tratou logo de providenciar versões cinematográficas das mesmas. Assim, de personagens clássicos (Fantasma, Flash Gordon) a super-heróis (Capítão Marvel, Super-Homem), passando por graphic novels como V de Vingança, do cultuado Alan Moore (que prá não fugir da rotina, renegou a adaptação) tiveram suas adaptações para a tela grande.
Tendo em vista a amplitude do tema discutido aqui, tenho que fazer uma opção, ou um recorte – como se chama na academia – e focar minha análise no novo filão cinematográfico: a adaptação de hq’s de super-heróis.
A tradução intersemiótica
Pegando o gancho do desprezo de Alan Moore para com as adaptações de sua obra – em alguns casos com muita razão, vide Do Inferno, A Liga Extraordinária e a assustadora próxima adaptação, Watchmen -, os filmes baseados em quadrinhos dificilmente alcançam a unanimidade entre os fãs, chegando ao ponto de ter gente que não curtiu X-Men 3:O Conflito Final pelo simples fato de não ter rolado uma briga entre Colossus e Fanático, coisa comum nos quadrinhos.
O fato é que, ao transportar uma linguagem artística para outra, acontece uma tradução, semelhante à transposição de um texto de uma língua para outra. A tradução não é construída literalmente, transcrevendo tudo ao pé da letra, como se diz; isso não é possível pelo simples fato de existirem diferenças culturais entre os envolvidos. Assim, o tradutor faz uma adequação de uma linguagem à outra, para que a obra possa ser compreendida.
Então, para fazer um filme de super-herói que agrade, ao mesmo tempo, tanto àquele fã radical quanto ao espectador que nunca ouviu falar do personagem, a receita é simples: basta traduzir o essencial do universo do personagem para as telas. No caso dos X-Men, a mensagem principal criada por Stan Lee era o da luta contra o preconceito, a intolerância. Então, mutação se torna uma metáfora para todo tipo de discriminação; pois bem, isso foi mantido no filme – e aí está uma das razões para o seu sucesso.
Segundo o professor e artista intermídia Julio Plaza, em seu livro Tradução Intersemiótica {2003} a tradução Intersemiótica ou ‘transmutação’ pode ser definida como sendo aquele tipo de tradução que ‘consiste na interpretação dos signos verbais por meio de sistemas de signos não verbais’, ou ‘de um sistema de signos para outro, por exemplo, da arte verbal para a música, a dança, o cinema ou a pintura’, ou vice-versa, poderiamos acrescentar.”
Em poucas palavras, intersemiose é o diálogo entre duas linguagens artísticas distintas, como o cinema e os quadrinhos, por exemplo; a tradução intersemiótica acontece quando uma linguagem adapta para si os códigos da outra: a adaptação cinematográfica de um romance, a quadrinização de uma música, são alguns exemplos desse processo.
Quando isso acontece, é comum o resultado ter algumas diferenças básicas em relação à obra original, o que é perfeitamente compreensível, pois o texto fica a serviço dos códigos da linguagem adaptadora. Teoricamente compreensível, mas, na maioria dos casos, inaceitável por parte dos admiradores do original, o que gera comentários comuns como “o livro é melhor” - frase muito ouvida no cenário cultural pop atual por parte dos fãs de obras como “O Senhor dos Anéis”, só para ficar no caso mais famoso.
Isso se deve ao fato de que na verdade a obras foi traduzida para a nova linguagem, e não transposta; tradução implica numa deliberada escolha de elementos mais significativos da obra original que continuem sendo significativos na nova linguagem. Assim, todos os “excessos” que não funcionariam são deixados de lado.
Como estratégia para agradar um público mais universal, algumas adaptações cinematográficas de hq’s se distanciam de seus modelos; no entanto, ultimamente podemos ver adaptações mais fiéis às obras originais - chegando ao extremo de uma total transposição do quadrinho para a tela.
Categorias de análise
Para exemplificar, escolhi quatro filmes, que vão desde o distanciamento total da obra original até a fidelidade máxima, passando pela tradução propriamente dita e por um exercício de narrativa.
Tão longe…
Mulher-Gato (2004), com Hale Berry. Dirigido por Pitof.
Eu poderia ter escolhido qualquer outro filme baseado em hq para exemplificar o total distanciamento de uma adaptação para com a obra original - alternativas não faltam. Mas Mulher-Gato beira o ridículo.
Quando Michelle Pfeiffer apareceu vestida de couro preto remendado no filme Batman - O Retorno, todos esperavam ver, na seqüência, um filme solo da personagem com a loira no papel principal. Anos depois, a decepção.
Nos quadrinhos, a Mulher-Gato é Selina Kyle, uma ladra sofisticada, que tem uma relação conturbada de amor/ódio com Batman. Era tão simples realizar essa adaptação, certo?
Mas o estúdio optou por mudar o nome da personagem (que passa a se chamar Patience Price), apagar suas características principais, retirar qualquer menção ao universo do homem-morcego…
Resultado: o esperado e merecido fracasso.
Tão Perto…
Sin City (2005), com Mickey Rourke e Bruce Willis, dirigido por Frank Miller e Robert Rodriguez.
Aqui, não estamos diante de uma tradução, mas sim de uma perfeita transcrição de uma história em quadrinhos para um filme. Nesse caso, os enquadramentos, ângulos, diálogos, passagens quadro a quadro, foram fielmente “copiados” para a tela do cinema.
Essa estética, adotada igualmente em 300, de Zack Snyder, tem como objetivo ser o mais fiel possível à obra original. Para fãs radicais, um delírio visual e narrativo.
No entanto, como produto de cinema, como filme, Sin City fica devendo em termos de linguagem, pois se preocupa demais em não se distanciar de suas origens quadrinísticas; então, nesse sentido, fica indeciso entre ser cinema e hq e termina se tornando um híbrido que não resiste a uma segunda olhada.
Traduzindo…
X-Men 2 (2003), com Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, dirigido por Bryan Singer.
Também poderia ter escolhido outros filmes, até mais recentes, para ilustrar a categoria tradução. Mas continuo achando que X-Men 2 é uma das melhores adaptações de um universo de quadrinhos para o cinema.
Aqui, Bryan Singer faz uma tradução intersemiótica perfeita, ao transpor para a linguagem cinematográfica todos os elementos seminais que formaram a história dos mutantes nos quadrinhos. As características de cada personagem, como comportamento e relação interpessoal, os conflitos que os motivam a lutar, a metáfora original criada por Stan Lee sobre preconceito…tudo está lá, bem colocado, de uma maneira que o torna realista, crível aos olhos de quem nunca viu os mutantes nos quadrinhos, e ao mesmo tempo reconhecível para velhos leitores.
Claro que, dentro dessa categoria, ainda podemos citar Homem-Aranha 2, Batman Begins e o recente Homem de Ferro, mas X-Men 2 foi o filme que mostrou que pode existir inteligência nas adaptações de histórias em quadrinhos. Pena que Singer não repetiu o tento no triste Superman Returns.
Experimentando o quadrinho na tela…
Hulk (2003), com Eric Bana, Jenniffer Connely e Nick Nolte, dirigo por Ang Lee.
Eu gostei do filme de Ang Lee. Sério. Tirando o final, que é ruinzinho, o filme dá uma abordagem diferente do que todos esperavam do personagem que “esmaga homenzinhos”.
Mas o grande achado do filme é a tentativa de Ang Lee de recriar na tela do cinema a experiência de leitura de uma história em quadrinhos, usando uma narrativa cheia de quadros e requadros, em enquadramentos típicos dos quadrinhos.
Além disso, a inovadora abordagem psicológica da dupla personalidade do verdão tornou-o mais interessante e palpável do que sua tradicional persona nos quadrinhos.
Uma das melhores adaptações de um personagem de hq para o cinema, para o bem ou para o mal.
Só espero que Watchmen e The Spirit, quando chegarem, fiquem bem encaixadinhos na terceira categoria.
Este post faz parte do projeto Blogueiro Reporter, uma iniciativa do Edney Souza.
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2 comentários para "Histórias em Quadrinhos e Cinema: uma delicada relação intersemiótica"
Adorei seu post!
Pessoal, essa eu tenho que recomendar, dois sites interessantíssimos: http://www.meus3desejos.com.br e http://www.videoflix.com.br.
Abs.
Tema muito interessante o seu, até aceitei melhor as adaptações agora (antes quando mais distante fosse do original, mais eu achava chato).
Quanto ao Homem de Ferro, havia lido umas análises de uns fãs que diziam que era o filme mais fiel aos quadrinhos, por isso pensava que ele estaria na segunda categoria, mas eu mesmo não assisti para conferir.
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