Um blog de raiz
10 May 2008
Admirável Mundo Novo
Corria o ano de 1980 e alguma coisa. Eu tinha dezoito anos, trabalhava num banco privado, havia conseguido escapar do serviço militar e toda a minha grana era prá comprar discos, quadrinhos, roupas e sair com os amigos prá me divertir – nessa ordem de prioridades.
Foi nesse período que o rock nacional deu um upgrade e os ingleses cometeram a chamada “segunda invasão mundial”: Smiths, Cure, Simple Minds, U2, Felt, Durutti Column, Bauhaus, Joy Division, Cocteau Twins…{“Heaven knows i’m miserable now” , dos Smiths, foi meu hino durante muito tempo}
Com tanta novidade, corri prá conseguir informações sobre aquelas bandas. Pena que não tinha Google naquela época (bem, não tinha nem internet naquela época) .
A primeira coisa que li sobre os ingleses (e sobre os brasileiros também) foi na primeira encarnação da revista Bizz, da qual virei assinante. Comprava também a revista Roll, que era mais pobrinha visualmente, mas que algumas vezes chegava a superar a concorrente de luxo no quesito “qualidade” de suas matérias.
E tome informação nova. Bandas das quais nunca tinha ouvido falar, muito menos ouvi um acorde sequer; resenhas sobre discos clássicos de artistas que ainda estavam ativos, como David Bowie, Talking Heads, Jethro Tull e por aí vai.
O problema é que parte desse material clássico e/ou de novidades não chegava ao país com tanta facilidade naquele período; e quando acontecia, geralmente era a preços nada convidativos.
Resultado: tenho uma boa leva de discos em vinil daquele período, mas fiquei chupando dedo e deixei de conhecer muita coisa boa que as revistas indicavam.
Quando a novidade do compact disc aterrisou por aqui, pensei: agora eu tiro o atraso!
Pois bem: até que chegaram alguns daqueles discos tão alardeados pelas revistas dos anos 80/90. Só que, mais uma vez, os preços não eram nada convidativos.
Quando estourou a onda da pirataria, fiquei com o pé atrás. Queria os discos originais, com encartes e tudo o mais.
O problema é que às vezes eu economizava uma grana e comprava um cd original e então tcharam!!!! – o encarte era pobre, não vinha com as letras, nem fotos decentes, nem nada. Pô, então, qual era a vantagem de comprar o cd original?
Cd original do Pearl Jam…
…e cadê as letras e fotos?
Mesmo assim resisti, acreditando que as coisas iriam mudar. Tanto que os únicos discos piratas que tenho daquele período comprei para os meus filhos, que ficavam me enchendo: uma coletânea dos Guns’n’Roses, outra do Nirvana e uma daquelas da Globo, Classic Metal 2 (er…bem, essa eu comprei prá mim só por causa de “Breaking all the rules”, do Peter Frampton).
Genérico do Guns - Greatest Hits
Então, os mp3 da vida deram o ar de sua graça. E, apesar de ter resistido por muito tempo, minha paixão pela música falou mais alto…
Resistance is futile!
Pois foi só a partir dos disquinhos de mp3 vendidos pelos camelôs da cidade que finalmente conheci discos clássicos de artistas como Bowie, Talking Heads, Radiohead, Cure, Tangerine Dream, King Crimson, Emerson Lake & Palmer, David Gilmour e por aí vai.
The Smiths mp3 Collection…
Minha inteligência musical (que, dentro das minhas sérias restrições orçamentárias, era grande, em parte graças ao meu amigo Jorge) teve um ganho surpreendente.
Mas não me tornei um consumidor contumaz desses disquinhos: após a aquisição de alguns com obras de minhas bandas preferidas, parei. Toda vez que eu comprava um, ficava aquela sensação de que estava fazendo alguma coisa errada.
Motivo: continuo preferindo os originais e quando dou de cara com algum desses discos a um preço justo, não penso meia vez e trago prá minha coleção - após a aquisição da coleção completa do Pink Floyd em MP3, por exemplo, já comprei três originais da banda em promoções, que se juntaram aos outros dois que eu já tinha. E ontem, vi que a discografia dos Beatles finalmente baixou dos tradicionais e eternos R$ 35,00/45,00 cobrado pelas lojas da cidade para convidativos R$ 19,90, nas Lojas Americanas físicas (não, este não é um post patrocinado).
E nunca comprei MP3 de música clássica e música brasileira. Explico: sempre encontro bons discos de música clássica por preços que variam de
Pirataria: porquê acontece?
Acredito que uma das causas que leva as pessoas a consumirem cd’s e dvd’s piratas é o preço dos originais. Ainda lembro de uma reportagem onde artistas populares como Jorge Aragão, Alcione e similares prestigiavam a destruição de milhares de produtos piratas apreendidos no Rio de Janeiro.
No dia seguinte, entrei numa loja só para matar a curiosidade sobre o valor cobrado pelas obras desses artistas populares: cd’s em média custando vinte e cinco reais; dvd’s beirando os cinquenta - bem, isso foi a meses atrás. Hoje, no site da Saraiva, por exemplo, vi a absurda quantia de R$ 62,90 cobrada por um DVD de Jorge Aragão :O.
Ao invés de ficarem aplaudindo trator esmagando cd’s piratas, porque não tentam junto às suas gravadoras reduzir o preço final dos disquinhos para consumo desenfreado de seus fãs?
E o que seria um preço justo? Acho que isso depende do bolso de cada um, mas é um absurdo desembolsar 35,00/45,00 reais por um disco como o Joshua Tree {de 1987}, do U2, por exemplo, cujo preço ainda continua nas alturas mesmo depois de 20 anos de lançado. Muito acima dos quatro álbuns da fase inicial da banda que saíram por módicos R$ 19,00 cada nas Lojas Americanas físicas. (não, este não é um post…ah, vocês já sabem).
Isso é uma cilada, Bino!
A questão da pirataria não envolve apenas o assunto deste post. Ela se espalha por todos os tipos de produtos, como roupas, calçados, softwares e, o mais grave, medicamentos. Milhões de reais são perdidos anualmente por causa da pirataria. Lojas fecham suas portas. Pessoas perdem empregos. E há denúncias de que, em alguns casos, a pirataria financia o crime organizado.
Ponto pacífico: a pirataria é crime e tem de ser combatida. É uma tarefa árdua, até porque me parece que uma parte da população não está nem aí para isso e consome desenfreadamente os produtos genéricos, sem sentimento de culpa. Como reverter esse comportamento?
É uma questão cultural; e esse comportamento atinge todas as classes: já ouvi um professor universitário falar que os comerciantes que vendem cd’s e dvd’s piratas de obras que não foram lançados oficialmente no país {músicas, shows, filmes raros, etc.} por desinteresse das gravadoras deviam ser considerados como agentes de divulgação cultural e não como criminosos.
Por outro lado, há consumidores que embarcam nessa de pirataria indiretamente, como os que compram pc’s com Linux instalado em lojas de eletro-eletrônicos, cujos vendedores oferecem a instalação do Windows sem custos adicionais; ou simplesmente já vendem com o SO das janelas instalado. Se os próprios comerciantes oficiais incentivam a prática, como isso pode ter um fim?
E, prá fechar, a minha antiga curiosidade em saber o que pensam os vendedores de cd’s e dvd’s piratas sobre o tipo de trabalho que fazem em breve será sanada.
Mas isso é um assunto para um próximo post.
postado ao som de Emerson, Lake and Palmer - Live at Royal Albert Hall {mp3, mas do meu cd original, comprado por módicos 19,90 nas - adivinhem - Lojas Americanas físicas…}
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