Um blog de raiz
6 May 2008
Ou mais um surto nostálgico desse que vos bloga…
Vinil. Alguém aí ainda tem algum guardado, nem que seja como recordação?
Ainda tenho 86 lp’s aqui comigo, guardadinhos {e prometo fazer um post sobre eles brevemente}.
A limpeza dos meus discos me fez lembrar de um tempo muito importante na minha vida, onde eu fazia o que mais gostava: ouvir música!
Pelo menos um final de semana por mês, eu saía de casa com um monte de vinis debaixo do braço e ia passar o dia na casa de Jorge.
Jorge é um amigo quase irmão que conheço há uns 25 anos ou mais um pouquinho. Jorge sempre foi o meu norte musical no que se refere à música brasileira.
Jorge morava numa casa de tamanho médio, mas que tinha um quintal lateral enorme, com árvores frondosas que faziam uma sombra deliciosa. E uma delas dava abacates gigantescos!
Então, das dez da manhã às nove da noite, ficávamos submersos no oceano da música.
Discutindo letras, harmonias e arranjos; outras vezes, ficávamos num profundo silencio para sorver melhor algumas obras-primas.
Ele me mostrava coisas da MPB que eu nunca tinha ouvido.
Eu levava coisas antigas do meu pai, as últimas novidades do rock internacional e do brock oitentista que despontava.
Trocávamos vinis para gravar em fitas cassete.
De vez em quando, toda a turma de amigos comparecia e era aquela festa.
Pilhas enormes de vinis, debates acalorados sobre músicos, discos, carreiras, letras, shows.
Paixões à tona, brigas pacíficas e o melhor da música.
O ritual às vezes se deslocava para a casa de outros amigos, mas a casa de Jorge era referência.
Quando surgiu o CD, a casa de Jorge sofreu um upgrade quase simultâneo {na verdade, ele tinha se mudado e morava sozinho}. Comprou um aparelho importado JVC com seu controle remoto de 47 botões {juro!}, manteve a coleção de vinis, mas começou a montar uma invejável cdteca, que hoje deve passar dos quatro mil títulos - e continua crescendo.
Então, tome horas e horas de música – e a constatação de que o som do vinil, apesar de toda a tecnologia, é melhor do que o do CD {imagina então comparando com o MP3…}.
Com o advento do MP3, nosso horizontes musicais se expandiram – e isso também é assunto para outro post.
Hoje em dia, a turma de amigos se vê pouco. Acho isso uma grande merda. “É essa vida corrida”, todos justificam – inclusive eu.
Nunca mais nos reunimos para “curtir um som”. Nem eu e Jorge, apesar de sempre nos vermos.
Mais do que “curtir um som”, o domingo na casa de Jorge era um acontecimento social.
Além disso, o ritual de retirar um disco de vinil de sua embalagem e colocá-lo para tocar, acompanhando a letra no generoso encarte não tem comparação com o que acontecia na era do CD, tampouco com o que acontece nestes tempos de música comprimida.
Minha filha, de dezoito anos, quando me vê limpando essas velharias, ainda se lembra desse ritual e sempre comenta que “escutar vinil era legal”.
Duvido que a geração de hoje faça isso: se reunir para ouvir música. Nessa fase fastfood de consumir música em mp3 players, cada pessoa tem seu universo musical particular. Nada contra, também tenho o meu player e ele é uma mão na roda, mas a experiência relatada mais acima era única
E duvido que algum desses jovens de hoje sentem num cantinho qualquer com tempo disponível para ouvir um disco completo, do começo ao fim, indo além do hit que toca na net ou na Mtv.
Quem tem paciência, hoje em dia, para descobrir as surpresas de aguardar a próxima faixa.
Agora, só preciso achar um toca-discos bom e barato prá poder voltar a escutar os meus vinis.
Um comentário para "Jovens tardes de domingo e uma pilha de lp’s"
[...] musical (que, dentro das minhas sérias restrições orçamentárias, era grande, em parte graças ao meu amigo Jorge) teve um ganho [...]
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