“A Liberdade guiando o povo”, de Delacroix

O assassinato da garota Isabela Nardoni está mexendo com o país. A cada momento, notícias e mais notícias pipocam na internet, na tv, nos jornais. Trinta dias depois, o assunto ainda pauta a imprensa.

Toda essa celeuma em torno da culpa ou da inocência do pai e da madastra da vítima tem mostrado, para os mais atentos, qual o ritmo que impulsiona a imprensa brasileira.

Desde o ocorrido, até programas que tratam de temas banais como fofocas de artistas da tv, receitas e amenidades têm dedicado boa parte do seu tempo à análise do caso Isabela.

Em todos os casos, uma análise claramente pueril, sem conteúdo, apenas colocada ali com o intuito de aproveitar o hype e abocanhar um naco de audiência.

 

Ana Maria Braga, por exemplo, praticamente todos os dias abre o seu programa com alguma “novidade” sobre o caso. Já entrevistou psicólogos, psiquiatras, peritos criminais e repórteres que estão cobrindo o caso.

Os jornais noturnos não ficam atrás na ânsia de aproveitar e ganhar um em cima do fato.

Um dos mais patéticos foi o que presenciei na Rede Record, na primeira semana depois do crime: numa narração fúnebre, com música de fundo tão tenebrosa quanto, o jornalista falava do crime {mais uma vez} quando soltou a novidade: um vídeo exclusivo da formatura do ABC da pequena Isabela. Não lembro das palavras exatas, mas o apresentador descrevia, numa redundância de doer, o que se passava no vídeo: “Agora, vemos Isabela se dirigindo ao palco para pegar seu diploma. Agora, veja que ela se posiciona para tirar uma fotografia. Ela força um sorriso e depois volta a ficar séria”.

Como assim, “força um sorriso”?

Qual as entrelinhas do discurso que ele apresentou? Será que ele quis dizer que, ao “forçar um sorriso” para a fotografia, a menina não era feliz? Qual a finalidade dessa observação? O que ele quis incutir nos telespectadores?

Outro momento infeliz foi o que aconteceu após a entrevista dos acusados do crime, no Fantástico.

E tome gente tentando analisar o comportamento do casal, as palavras, o gestual, os olhares…

A reconstituição do crime parecia uma passarela do sambódromo. Arquibancadas, tripés, câmaras de alta definição, um monte de gente circulando, batendo papo, enquanto o show era preparado.

A Record News preparou uma cobertura monstro {prá não dizer monstruosa}, ficando O DIA TODO no ar, mostrando paredes do prédio, o portão do prédio, a guarita do prédio, a movimentação das pessoas, repetindo textos sobre o crime…

O verdadeiro show da vida.

E pra finalizar, a capa da Veja, tétrica: “Foram eles”.

Então, o que estamos esperando? Vamos convocar os repórteres investigativos da Veja para descobrir quem matou Kennedy, Juscelino Kubistchek, Jango e PC Farias.

Telespectadores mais críticos não se deixam envolver por essas artimanhas do jornalismo capenga, mas e a maioria da população?

Será que as reações de tentativa de linchamento, apedrejamento de carros e tentativa de invasão da casa dos Nardoni não são um reflexo dessa lavagem cerebral?

A liberdade é um dos maiores direitos do homem.

Um país que tem liberdade de imprensa é um país civilizado {eu detestaria viver em Cuba ou na China}. Parafraseando a pintura acima, a imprensa deveria usar essa liberdade para guiar o povo. Infelizmente, algumas vezes ela faz isso usando viseiras para cavalo.

Então, a questão que se levanta é: o que se faz com essa liberdade.

Pelo menos nesses últimos trinta dias, especificamente neste caso, não acredito que ela esteja sendo bem utilizada.

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