Um blog de raiz
7 Apr 2008
Gosto muito daquele poema do Vinícius que começa assim: “Filhos…filhos?/ Melhor não te-los!/Mas se não os temos/Como sabe-lo?”
Na época em que eu e minha esposa ficamos grávidos, a insegurança era um dos sentimentos mais presentes.
Depois que a filhota nasceu, o pavor tomou conta de mim: “e agora? Como cuidar? Vou ter dinheiro suficiente? E se eu morrer agora, o que vai ser dela? Como segurar sem derrubar? Porque ela ta chorando tanto? Ai meu Deus, ta tão quietinha…será que ta respirando?”
Enquanto isso, passado o temor inicial, a mãe seguia pelos dias sem tanto stress assim – mãe é mãe, é divino, não tem jeito…
Uma nova vida é um sinônimo de esperança, de coisas boas, de perpetuação da espécie humana no que ela teria de melhor.
Porém, nas últimas semanas, cheguei a comentar com Tita: se fosse hoje, eu ia pensar muito antes de ter um filho.
Você coloca filhos no mundo e os educa, mostrando pra eles tudo o que a vida tem, de bom e de ruim; os alerta para os perigos do dia-a-dia; de como se comportar nos lugares, como tratar as pessoas. Enfim, como ser uma pessoa do bem, um cidadão, ciente dos seus direitos e deveres.
Mas me corta o coração ao ver meus filhos presenciando o que de pior a alma humana pode oferecer, ali, todos os dias, no noticiário noturno.
O caso da menina torturada por uma empresária me deixou fora do ar alguns dias. Eu só conseguia pensar no que a coitada sofreu nas mãos daquela mulher. As descrições dos maus-tratos não paravam de soar na minha cabeça.
O {até o momento deste post} misterioso assassinato da menina Isabella também me jogou por terra. Como alguém pode matar uma criança? Eu não consigo compreender.
Meus filhos então, nem se fala.
E fica mais difícil quando eles se tornam protagonistas de coisas que eu, com meus 43 anos, nunca vivenciei quando tinha a idade deles.
Meus filhos foram assaltados pela primeira vez quando tinham, respectivamente, 12 {Júnior} e 13 {Lívya} anos de idade!
O ladrão os abordou quando voltavam da escola, pertinho de casa, ao meio-dia. Levantou a camisa, mostrou um revólver e como eles não tinham celulares e não estavam usando tênis, levou o dinheiro que eles tinham: menos de um real
Quando me relataram isso, meus olhos marejaram num misto de agradecimento {por não ter acontecido nada grave}, de revolta e de ódio.
Depois disso, Júnior já foi assaltado mais três vezes – a última, três semanas atrás, quatro horas da tarde, rua movimentada; e o pior, com um cano de um revólver encostado no nariz.
Posso ver o medo nos olhos deles quando estamos na rua, principalmente à noite; ou o temor que têm de sair sozinhos, às vezes para ir à padaria no fim da rua.
Mas a vida ter que ser vivida, digo a eles; experimentada, curtida; temos que ir ao cinema, sair com os amigos, rir, dançar… mesmo debaixo de tanta insegurança, de tanto medo. Não podemos nos deixar abater por isso. Temos que ter fé.
Ultimamente, tenho tido uns surtos saudosistas. Mas não tem como fugir desse pensamento clichê: bons tempos em que o medo de colocar um filho no mundo se resumia a picuinhas como saber se o “cocô está branco/o cocô está preto”, se “chupam gilete/bebem shampoo/ateiam fogo no quarteirão”.
P.S. O poema é “Poema Enjoadinho”, de Vinícius de Moraes.
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3 comentários para "Sobre o perigo de colocar filhos no mundo"
Realmente se formos olhar pelo lado do sofrimento humano, dá medo de pôr mais gente no mundo, mas por outro lado, não os pôr poderia ser mais frustrante, por não lhes dar a chance (e nos dar também) de vivenciar o que há de bom ainda nessa vida.
Que possamos viver o hoje como se não houvesse amanhã.
É muito difícil ter um filho hoje em dia eu tenho uma linda menina, e não é fácil saber que vou ter que um dia “entrega-la” para esse mundo desgovernado.
Roberto e Márcio: apesar do meu esperançômetro baixo, a saída é essa mesmo: viver a vida, com fé e esperança, mas sempre alerta para o que acontece ao nosso redor - e ao redor dos nossos filhos.
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