Porque as pessoas aceitam as mentiras e exageros da ficção? Nesse artigo, saiba um pouco mais sobre o recurso narrativo da suspensão de descrença.

Este post faz parte da “Blogagem Inédita“, uma iniciativa do Edney no sentido de trazer conteúdo inédito por parte dos blogs.

Se você acompanha quadrinhos e suas notícias relacionadas, deve ter visto a polêmica que se abateu sobre a Marvel Comics com relação às profundas mudanças na vida do Homem-Aranha, o amigão da vizinhança.

Se você não acompanha nada disso, um breve resumo: a tia do Hmem-Aranha, May foi baleada e fica entre a vida e a morte; Peter Parker, então, faz um acordo com Mefisto, uma espécie de belzebu da editora: em troca da vida da sua tia May, ele abdicaria do seu amor puro com sua mulher, Mary Jane. Além disso, todos esqueceriam que ele era o Homem-Aranha (ele tinha revelado sua identidade na tv, ao vivo). Peter Parker, é claro, aceitou…

A partir daí, o que aconteceu foram protestos dos leitores, críticos de quadrinhos e de meio mundo de gente sobre o acontecido.

Mas porque toda essa celeuma em torno de uma história em quadrinhos?

Por um motivo bem simples: os escritores quebraram uma regra básica do mundo da ficção, a suspensão de descrença.

Mas o que danado é isso?

A suspensão de descrença é, grosso modo, um “acordo” entre o público receptor e uma obra de ficção. Nesse acordo, fatos extraordinários e pessoas com habilidades sobre-humanas, por exemplo, podem passear pela obra sem que o público conteste.

Quer dizer, todo mundo sabe que o que está acontecendo não é verdade, mas deixa essa percepção do exagero, da impossibilidade, de lado para poder fruir, consumir, aproveitar a obra. Ou seja, é a mentira a favor da história.

É por causa desse “acordo” que acreditamos em coisas como:


Um jovem picado por uma aranha radioativa que ganha poderes e vira um super-herói;

Um agente contra-terrorista norte-americano que consegue resolver situações complicadíssimas em apenas 24 horas;

Naves interestelares que viajam à velocidade da luz através de uma dobra espacial;

Em teletransporte;

Em alienígenas que implantam ovos em hospedeiros humanos;

Em andróides inteligentes que vivem milhões de anos;

Em robôs inteligentes;

Em poderes fantásticos que são fruto de mutações genéticas;

Um agente secreto que não leva um tirinho sequer debaixo de uma saraivada de balas;

Um playboy milionário que se veste de morcego para combater o crime;

Num homem que volta no tempo para encontrar a mulher da sua vida;

Políticos honestos…

Quando a suspensão de descrença é deixada de lado, acontece isso: o público “rescinde” o contrato com a obra, porque ela, mesmo diante de seus exageros, apresentou algum elemento que extrapola o limite do aceitável.

No caso do Homem-Aranha, além dos escritores terem quebrado a suspensão de descrença com a introdução de um personagem que nem faz parte do “universo particular de vilões” do aracnídeo, ainda introduziu um “deus ex-machina” no pedaço, que foi a pá de cal em toda a história.

Êpa, o que deus tem a ver com essa história?

Deus ex-machina” era um recurso utilizado no teatro grego. Diante de todas as tramas apresentadas ao espectador, quando parecia que aquele nó não ia desatar, de repente aparecia algum personagem, máquina ou acontecia algum evento que resolvia tudo, assim mesmo, do nada.

Tipo: “putz, coloquei os personagens numa roubada! Como eu resolvo todas essas pontas soltas? Ah, já sei, vai acontecer um terremoto e todo mundo vai morrer!” ; )

Isso já aconteceu até em novela brasileira! Em Torre de Babel (se não me engano, em 1998), de Sílvio de Abreu, “deus ex-machina” veio na forma de uma espetacular explosão no shopping center que era o cenário principal; no evento, morreram personagens como o casal homossexual vivido por Christiane Torloni e Sílvia Pfeifer, vítimas da pressão (e do conservadorismo) da sociedade diante de alguns personagens da trama. : (

Então, quando uma obra de ficção começar a viajar demais na maionese, você agora já sabe: a suspensão de descrença começou a ser desmontada; e, logo logo, alguém vai aparecer de repente, do nada, prá desfazer todo aquele nó em que a história se transformou. E aí, diante de uma situaçao dessas, o que fazer?

Simples: rasgue o “contrato”!

P.S 1.: um dos grandes medos que eu tenho, atualmente, é que todo aquele mistério de Lost seja resolvido assim, com um grande “deus ex-machina”!

P.S 2.: Participe! Deixe sua opinião sobre a seguinte questão: os filmes de Chuck Norris quebram a suspensão de descrença ou não?

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