Um blog de raiz
17 Mar 2008
Porque as pessoas aceitam as mentiras e exageros da ficção? Nesse artigo, saiba um pouco mais sobre o recurso narrativo da suspensão de descrença.
Este post faz parte da “Blogagem Inédita“, uma iniciativa do Edney no sentido de trazer conteúdo inédito por parte dos blogs.
Se você acompanha quadrinhos e suas notícias relacionadas, deve ter visto a polêmica que se abateu sobre a Marvel Comics com relação às profundas mudanças na vida do Homem-Aranha, o amigão da vizinhança.
A partir daí, o que aconteceu foram protestos dos leitores, críticos de quadrinhos e de meio mundo de gente sobre o acontecido.
Por um motivo bem simples: os escritores quebraram uma regra básica do mundo da ficção, a suspensão de descrença.
Um jovem picado por uma aranha radioativa que ganha poderes e vira um super-herói;
Um agente contra-terrorista norte-americano que consegue resolver situações complicadíssimas em apenas 24 horas;
Naves interestelares que viajam à velocidade da luz através de uma dobra espacial;
Em teletransporte;
Em alienígenas que implantam ovos em hospedeiros humanos;
Em andróides inteligentes que vivem milhões de anos;
Em robôs inteligentes;
Em poderes fantásticos que são fruto de mutações genéticas;
Um agente secreto que não leva um tirinho sequer debaixo de uma saraivada de balas;
Um playboy milionário que se veste de morcego para combater o crime;
Num homem que volta no tempo para encontrar a mulher da sua vida;
Políticos honestos…
Quando a suspensão de descrença é deixada de lado, acontece isso: o público “rescinde” o contrato com a obra, porque ela, mesmo diante de seus exageros, apresentou algum elemento que extrapola o limite do aceitável.
No caso do Homem-Aranha, além dos escritores terem quebrado a suspensão de descrença com a introdução de um personagem que nem faz parte do “universo particular de vilões” do aracnídeo, ainda introduziu um “deus ex-machina” no pedaço, que foi a pá de cal em toda a história.
Êpa, o que deus tem a ver com essa história?
“Deus ex-machina” era um recurso utilizado no teatro grego. Diante de todas as tramas apresentadas ao espectador, quando parecia que aquele nó não ia desatar, de repente aparecia algum personagem, máquina ou acontecia algum evento que resolvia tudo, assim mesmo, do nada.
Tipo: “putz, coloquei os personagens numa roubada! Como eu resolvo todas essas pontas soltas? Ah, já sei, vai acontecer um terremoto e todo mundo vai morrer!” ; )
Isso já aconteceu até em novela brasileira! Em Torre de Babel (se não me engano, em 1998), de Sílvio de Abreu, “deus ex-machina” veio na forma de uma espetacular explosão no shopping center que era o cenário principal; no evento, morreram personagens como o casal homossexual vivido por Christiane Torloni e Sílvia Pfeifer, vítimas da pressão (e do conservadorismo) da sociedade diante de alguns personagens da trama. : (
Então, quando uma obra de ficção começar a viajar demais na maionese, você agora já sabe: a suspensão de descrença começou a ser desmontada; e, logo logo, alguém vai aparecer de repente, do nada, prá desfazer todo aquele nó em que a história se transformou. E aí, diante de uma situaçao dessas, o que fazer?
Simples: rasgue o “contrato”!
P.S 1.: um dos grandes medos que eu tenho, atualmente, é que todo aquele mistério de Lost seja resolvido assim, com um grande “deus ex-machina”!
P.S 2.: Participe! Deixe sua opinião sobre a seguinte questão: os filmes de Chuck Norris quebram a suspensão de descrença ou não?
4 comentários para "Suspensão de descrença e “deus ex-machina” na ficção ou O coitado do Homem-Aranha pagou o pato!"
Legal, não conhecia esses termos.
No caso do homem aranha, os autores podem até ter tentado resolver as coisas, mas acho que estragaram toda a recente história dele.
Espero que eles usem de novo o deus ex-machina para desfazer o que o deus ex-machina anterior fez.
Pois é, Roberto. Essa sua sugestão talvez seja a saída para resolver a complicada vida do Aranha. O que muitos desses escritores esquecem quando imaginam essas tramas mirabolantes e suas soluções esquisitas, é que do lado de cá existem pessoas que acompanham o personagem há anos, e o conhecem como se ele fosse um amigo mais íntimo - e isso não é só nas hq’s.
Então, quando mudam drásticamente alguns elementos “sagrados” de sua história ou de seu universo em nome de outro “deus” chamado “marketing”, dá no que dá.
O triste é saber que, apesar de tudo, eles nunca aprendem.
Grande abraço.
É por isso que deixei de acompanhar revistas de super-herói que tenham cronologia. Agora, só compro especiais, encadernados e coisas biscoito fino como Sandman e outras graphic novels. São caras, mas juntando uma graninha dá prá ter um pouco mais de qualidade em quadrinhos.
é uma pena, pois adoro personagens como o Aranha, o Batman e os x-men, mas acompanhar essa zona tá difícil.
Pois é, Hélio. Estou indo pelo mesmo caminho, selecionando melhor o que comprar. E o coitado do Aranha do qual gosto tanto ficou às traças por culpa desses roteiristas descerebrados.
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