Um blog de raiz
30 Jan 2008
Uma das visões otimistas de como seria o século 21 apontava o fim das adversidades que atormentam a humanidade: as guerras, as doenças e o espectro da fome. A tecnologia daria um fim a tudo isso e o homem se dedicaria a outras “preocupações”, como a de explorar o espaço.
Bem, chegamos ao futuro. Ainda há guerras. Ainda há doenças. E ainda há a fome.
Tema freqüente debatido por todas as nações do planeta, a fome talvez seja uma das maiores vergonhas da humanidade.
Um brasileiro dedicou toda a sua vida a denunciar a fome no mundo.E uma boa introdução ao seu pensamento é o livro que estou lendo atualmente.
Fome – um tema proibido é uma coletânea com os últimos escritos do médico Josué de Castro, organizados por Anna Maria de Castro, sua filha.
Apesar dos textos do livro terem sido publicados entre 1964 e 1973, os mesmos continuam atuais, o que evidencia a urgência do tema e confirmam que, desde a publicação de sua obra-prima, Geografia da Fome, em 1946, pouca coisa concreta foi feita pelos governos mundiais para resolver este problema.
A fome como fenômeno universal
O livro começa com “A descoberta da fome”, o prefácio que Josué de Castro fez para o seu único romance, “Homens e Caranguejos”. Publicado em 1965, o livro é um relato quase autobiográfico de como a fome se revelou para ele – e onde ele descreve o famoso ciclo do caranguejo, que serviu de base para Chico Science, Fred 04 e Renato L elaborarem o conceito do Movimento Mangue.
“E foi assim que, pelas histórias dos homens e pelo roteiro do rio, fiquei sabendo que a fome não era um produto exclusivo dos mangues. Que os mangues apenas atraíram os homens famintos do Nordeste: os da zona da seca e os da zona da cana. Todos atraídos por esta terra de promissão, vindo se aninhar naquele ninho de lama, construído pelos dois rios e onde brota o maravilhoso ciclo do caranguejo. E quando cresci e saí pelo mundo afora, vendo outras paisagens, me apercebi com nova surpresa que o que eu pensava ser um fenômeno local, um drama do meu bairro, era um drama universal. Que a paisagem humana dos mangues se reproduzia no mundo inteiro. Que aqueles personagens da lama do Recife eram idênticos aos personagens de inúmeras outras áreas do mundo, assoladas pela fome. Que aquela lama humana do Recife, que eu conhecera na infância, continua sujando até hoje toda a paisagem do nosso planeta como negros borrões de miséria: as negras manchas demográficas da geografia da fome.” {p. 36}
Mais adiante, Josué de Castro apresenta a sua teoria da relação entre superpopulação e a fome, indo de encontro ao pensamento científico da época.
“A verdade é que não se pode, sem forçar por completo a realidade dos fatos, atribuir à superpopulação a existência da fome nos nossos dias, quando se sabe que não são os países mais densamente povoados os que passam mais fome.”{…} A fome é, regra geral, o produto das estruturas econômicas defeituosas e não de condições naturais insuperáveis. Querer justificar a fome do mundo como um fenômeno natural e inevitável não passa de uma técnica de mistificação para ocultar as suas verdadeiras causas que foram, no passado, o tipo de exploração colonial imposto à maioria dos povos do mundo, e, no presente, o neocolonialismo econômico a que estão submetidos os países de economia primária, dependentes, subdesenvolvidos, que são também países de fome.”
Um das passagens mais surpreendentes é o capítulo 4, intitulado “A miséria na abundância: a fome nos Estados Unidos da América”, escrito em 1971, onde Josué de Castro relata de maneira contundente como se apresenta a fome no mais poderoso, rico e influente país do mundo.
Um grande livro, sobre um assunto vergonhoso e, infelizmente, atual.
Quer saber mais sobre Josué de Castro? Clique aqui e conheça a página oficial sobre a vida e a obra do médico pernambucano.
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Os comentários enviados até o dia 26/02 estarão concorrendo ao prêmio, ok? Participem e boa sorte !
P.S.: As imagens que ilustram este post são de esculturas de Abelardo da Hora, artista plástico pernambucano que é um dos homenageados do Carnaval 2008. Para saber mais sobre o artista, visite o seu site clicando aqui.
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5 comentários para "O futuro chegou, mas ainda tem fome."
[...] promoção foi lançada neste post. Confiram e [...]
É algo que sempre posto em meu blog, o maior problema desses criminosos não é só a falta de moradia, mas a fome, a falta de oportunidade, discriminação, etc…
Seus delineamentos conceituais e propositivos continuam vivos e constituem instrumentos indispensáveis para repensarmos criticamente a realidade brasileira e, particularmente, a nordestina. Considero a leitura desse um livro indispensável, atual pela sua mensagem estimuladora e perturbadora.
Estava fazendo uma pesquisa escolar e acabei parando aqui .Que sorte!!!Pois não achei o q estava procurando mais algo do tipo que enriquece meu conhecimento com um texto de facil interpretação e conteudo rico em detalhes.
Parabéns e obrigado.
Obrigado pela visita e pelo comentário, Cleiton, e volte sempre. Grande abraço.
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