Cartilha publicada pelo CDH de Sapopemba-SP

Alessandro Martins, do blog Livros e Afins, publicou um post indicando uma cartilha publicada pelo Centro de Direitos Humanos de Sapopemba {SP} que traz orientações de como se comportar em uma batida policial.

Acho importante iniciativas como essa {tanto do CDH em publicar a cartilha como a do Alessandro em divulgar}, porque nós, brasileiros, ainda precisamos aprender a exercitar os nossos direitos de cidadão.

Esse assunto me lembrou uma batida policial que aconteceu num ônibus, uns vinte anos atrás, e que ficou marcada em minha memória – e me ensinou, praticamente, como eu deveria me comportar em uma blitz.

Eu estava voltando da faculdade. O ônibus estava lotado, já era quase meia-noite. A maioria dos passageiros eram estudantes. Alguns dormiam pesadamente em suas poltronas, alheios ao barulho das pessoas conversando e aos solavancos do veículo.

De repente, o ônibus reduz a velocidade e pára. Estávamos no sistema viário conhecido como Complexo de Salgadinho, conjunto de avenidas e viadutos de alta velocidade que liga a cidade do Recife à de Olinda – e naquela época, um local ermo, sem iluminação pública, e em determinados trechos, sem residências ou prédios comerciais.

Os policiais entraram no coletivo e, bruscamente {o “boa noite, desculpem interromper a viagem” e “por favor, identidade na mão” só vieram a fazer parte da abordagem a partir dos anos 90}, começaram a pedir que as pessoas mostrassem documentos de identidade, abrissem bolsas e ficassem em posição para serem revistadas.

Foi então que aconteceu.

Um rapaz que dormia profundamente, com cadernos e livros no colo, foi acordado pelo policial com cutucões no braço; aparentava estar muito cansado, pois só acordou a muito custo. Quando percebeu que era uma blitz, levantou, mostrou documentos, cumpriu tudo o que o policial pediu.

Como que revoltado pelo tempo perdido com o sonolento, começou a fazer perguntas com a identidade do rapaz na mão: “nome do pai, nome da mãe, ano de nascimento, mora aonde”…

O rapaz respondeu a tudo, o policial devolveu os documentos e já ia saindo, quando o rapaz sentou pesadamente na poltrona, soltou um suspiro profundo e voltou a fechar os olhos.

O policial voltou e perguntou: “o que foi, achou ruim porque eu acordei você?”

Entrou um oficial e perguntou o que estava acontecendo. O policial: “ele achou ruim porque tava dormindo e eu acordei pra revistar”

O coitado do rapaz foi convidado a se levantar novamente. Tentou se defender. Outros passageiros começaram a dizer que ele não tinha reclamado nada.

O oficial não quis saber. Pegando ele pelo braço, ordenou rispídamente: “Desce”

E pronto. Tiraram o rapaz do ônibus. E mandaram o ônibus seguir.

Ficamos olhando pela janela o oficial gritando com o rapaz.

O ônibus foi embora. Só no dia seguinte, quando voltava para casa, no mesmo horário, foi que fiquei sabendo, através de outras pessoas, que não fizeram nada demais com ele. Só o seguraram por alguns minutos e mandaram ele ir embora a pé – o coitado deve ter chegado em casa no meio da madrugada.

Por isso, a importância de se conhecer os seus direitos e deveres, para evitar que abusos como esse aconteçam.

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