Na estréia da coluna Sobe o Som!!!, a redescoberta de um grande (e incompreendido) disco do BRock.

A Mão de Mao - 1987

Corria o ano de 1987. O chamado BRockjá tinha mostrado ao que veio. As bandas paraquedistas já tinha ido dessa prá melhor. A cena era tomada pelos grandes.
Bandas amadurecidas, grandes discos lançados.

Lobão vinha com “Vida Bandida“, seu melhor disco até então. O Ultraje cantava que não vivia sem “Sexo“; o Barão Vermelho lambia as feridas da saída de Cazuza com “Rock’n'Geral“. Herbert, Bi e Barone repassavam a carreira em “D“, showzaço gravado ao vivo; os Titãs continuavam a trilha do “Cabeça…” com “Jesus não tem dentes no país dos banguelas“. A Legião atacava com “Que País é Este?“, resgatando os hits do tempo do Aborto Elétrico. E o Biquíni Cavadão teve a difícil missão de gravar o segundo disco depois do excelente e irretocável “Cidades em Torrentes” - “A Era da Incerteza” não era tão ruim {qualquer dia falo dele aqui}.

Eis que o Metrô, que tinha estourado dois anos antes com “Olhar“, volta sem a vocalista Virginie e lança um novo disco. A estranheza começava pelo enigmático título: A Mão de Mao. Nos vocais, o desconhecido Pedro Parq, que vinha do grupo underground português Mler Ife Dada.

O Metrô nos tempos de A Mão de Mao

Na época, comprei o disco motivado pela crítica positiva da revista Roll, mesmo sem ter escutado nenhuma música.

E fiquei de queixo caído.

O que o Metrô estava propondo era uma guinada radical na mina de ouro que foi o primeiro disco, “Olhar“, que era quase perfeito com suas saborosas canções pop. O novo disco soava como um tiro no pé, mas acho que eles não estavam nem aí.

O disco tem cinco grandes canções, uma promessa que poderia ter sido mais lapidada, uma doce experimentação, uma música de trabalho ruim e uma idiotice cantada em inglês. Saldo positivo.

o disco estava à frente do seu tempo. Não havia nada no rock brasileiro naquele momento que pudesse ser comparado ao som que a banda gravou. Nenhuma música tocou no rádio. Nenhum canal de tv os chamou para fazer playback no domingo à tarde. A crítica adorou. O público não comprou. Quando vieram fazer um show aqui em Recife, a chamada na tv tinha como música de fundo “Beat Acelerado” - que eles não tocaram, segundo um amigo que foi {e falou muito mal depois}.

Vamos ao disco, faixa à faixa:

1 - A Mão de Mao - a primeira grande música do disco começa com uma gaita de foles (!!). A guitarra vem num crescendo e em seguida entra a bateria seca e forte de Dany e o baixo poderoso de Zaviê. Pedro Parq mostra sua bela voz numa letra que parece a descrição metafórica de uma relação sexual {”dentro enorme eu era/entro e saio/escravo nú/enquanto a cabeça não gira/não pensa/não grita uau uau/dentro enorme eu era/entro e saio/mas grito que quero te ver“}. A música termina com um pianinho em levada jazzy que, infelizmente, dura pouquinho…

2 - Habhitantes - a sequência é igualmente poderosa. A bateria marca o início de um rockão com guitarras saturadas e violões de aço. A letra toca de leve na relação homem x máquina {”os novos habhitantes/em nome de um segundo a mais/homens e máquinas/à cem metros de/nunca voltar atrás“}

3 - Cinema Branco - aquela que, melhor lapidada, seria mais uma grande canção. Depois de três audições, ela fica meio chata, salvando-se em algumas passagens pelas bruscas mudanças no andamento e pela letra meio maluca - aliás, como quase todas do disco.

4 - Atlântico, 07 de Novembro - a doce experimentação de que falei. A canção “romântica” do disco começa suave, com contrabaixo, piano, bateria e trumpetes conversando delicadamente, até a explosão da bateria de Dany e do vocal de Pedro Parq quebrarem o “silêncio”. A letra é ótima.

Abro a cortina de vidro/e vejo a cidade de luz/o amor é um vidro.

Eu sei/os livres reféns/a verdade não vem/ou quase não vem/agora vem deitar aqui do meu lado/sai da miragem/da margem do rio.

Nesse vapor/lágrima lágrima/o amor é um vidro/um vidro ou um espelho prá se ver“.

E termina suavemente…

5 - Boca - a terceira grande canção do disco. É inacreditável que uma música como essa não tenha sido escolhida para tocar nas rádios, pois tinha potencial para chamar a atenção para o álbum. Pedro desfia uma excelente letra sobre beijo, boca, língua e lábios que já escutei.

PERDI/a língua na boca vermelha/no sono do beijo na boca/não sei do lábio/ou da cor vermelha da boca/me deixou em branco{…}/queria junto a língua no beijo/no riso da boca vermelha{…}/falei a língua do canto da boca/que fala e deixa ver

6 - Gato Preto - escolhida para ser a música de trabalho {não cheguei a ouvir em nenhuma rádio}, essa música esquisita não mostrou ao que veio. Mais uma letra experimental, dessa vez sobre a enigmática vinda de um gato preto. Próxima…

7 - Ahnimais {wiss} - você só começa a perceber a beleza desta música depois de escutá-la algumas vezes. A letra é uma sucessão de nomes conhecidos, num arranjo com muita percussão - tem até triângulo -, tecladinhos e a velha e poderosa bateria. { “Fellini Mussolini ha ha/Adjani ou/Yoko Ono Eno/Nancy Reagan/Intel B. Rambo/In Zimbabwe/no dicionário/nomes de Ah a Z/Ahnimais Ahnimais/somos ahnimais selvagens/como ahnimais selvagens”}

8 - The Red Player {Idiot Love} - o título já anuncia: a idiotice em inglês. Próxima.

9 - Lágrimas Imóveis - a última canção do disco tem a melhor letra de Pedro Parq e o melhor arranjo da banda, tudo encaixado e na medida certa - e por isso, é a melhor de todas. Um hit potencial desprezado pelas rádios da época.

Não sou convidado/e tenho tudo a oferecer/casas uniformes gente nua e aplausos na montanha/não podem mais ficar/nem mais um dia/última ceia/Nem que o tempo nos espere/e nos leve/e nos lave/e nos encha de coisas/nas unhas dos dedos da mão/{…}lágrimas imóveis/lágrimas/lágrimas imóveis nessa cara/não podem mais ficar

Ao final, a música vai num crescendo de emoção, que culmina numa explosão sonora de todos os instrumentos, que vão dando espaço à um belíssimo acordeon, que encerra a música e o disco com classe e delicadeza.

É uma pena que o disco não tenha sido lançado em cd - ainda tenho o meu vinil, que passei para MP3 no final de 2007 e, finalmente, pude matar saudades.

P.S.: Para quem quiser saber mais sobre o Metrô, é só visitar esta página, que contém a história da banda, discografia, letras, fotos, mp3 e vídeos.

P.S 2.: Em 2003, o Metrô voltou e lançou um disco pela Trama, chamado Déja Vú, que ainda não escutei. Na formação atual, só Virginie, Yann e Danny. Mas o Zaviê participa do disco como convidado.

Gostaram? Não gostaram? Enviem seus comentários, críticas, sugestões e cacetadas

E não percam as próximas colunas: como a pirataria me fez um ouvinte mais inteligente; você ainda compra cd? a música pernambucana responde a chamada - “Mirando a Estrela“, do Eta Carinae, “Cirandas, Côcos e Canções“, de Ana Diniz e “Simulacro“, de China. E ainda: a primeira promoção do Macaxeira Geral!!!! Quer ganhar um dos cd’s acima? Então, fique de olho.

UPDATE: O àlbum Déja Vu foi lançado em 2002 e não em 2003. Obrigado pela dica, Silvana!

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