Miau....

Quem não gosta de gatos tem na ponta da língua uma relação sem fim com os defeitos dos bichanos – gato é aproveitador, gato não é fiel, gato gosta mais da casa do que do dono, gato tem parte com o tinhoso e por aí vai.

E quando comparados aos cachorros, os coitados perdem feio.

Embora hoje eu tenha um cachorro {na verdade, o cachorro é dono da família toda}, sempre gostei mais de gatos. Tive vários, que sempre renderam muitos momentos felizes na minha vida.

Félix foi o melhor deles.

Ele era tão especial que chegou a ser classificado pela família como um gato com espírito de cachorro, tamanha a semelhança de suas atitudes com as da raça canina {não sei se isso pode ser considerado um elogio para um gato…}

Felix era nosso despertador. Às seis da manhã, subia na cama dos meus pais e os acordava com miados. O velho levantava, se arrumava, tomava café e ia trabalhar. Tudo isso acompanhado pelo bichano {menos a parte do banho…}.

Sério.

Quando meu pai saía para o ponto de ônibus, Félix o acompanhava até lá. E só voltava quando meu pai tomava o ônibus. Alguns vizinhos achavam assustador, outros achavam fofo. Na escola, ninguém acreditava quando eu contava.

Quando qualquer pessoa de casa chegava da rua, ele fazia aquela festa, miando e se esfregando em nossas pernas - nenhum outro gato que eu tive fazia isso.

Quando não estava estudando ou vendo tv, eu passava a tarde brincando com Félix: ele adorava correr atrás dos meus carrinhos de fricção; ficava maluco tentando pegar um cordãozinho que eu ficava puxando pela casa; e travávamos verdadeiras batalhas: eu com minha almofada ou travesseiro e ele com suas garras afiadas.

Às vezes, tirando um cochilo no final de semana, acordava com aquele peso no abdômen – era o gato, todo enroscado em cima de mim.

Ele parecia entender o que a gente dizia.

Até o dia em que a estupidez humana falou mais alto.

Félix voltou dos seus tradicionais passeios noturnos doente. Vomitava muito. Alguém o tinha envenenado. Meu pai foi atrás de remédio, desesperado.

Fui dormir e Félix, já medicado, parou de miar de dor e parecia ter melhorado.

Às seis horas da manhã do dia seguinte, ninguém acordou com os miados de Félix.

Nessa história, a cena que me marcou e que até hoje me emociona {é só lembrar que já fico com os olhos cheios d’água} é a de meu pai tomando café, todo arrumado para ir trabalhar, num silêncio perturbador, com pesadas lágrimas escorrendo pelo seu rosto.

Félix foi colocado em uma caixa de sapatos. Meu pai saiu com ela debaixo do braço…e meu gato preferido se foi para sempre.

Depois de um período de “luto”, a família teve outros gatos – alguns com histórias divertidas, curiosas e também tristes. Mas nenhuma delas digna da história de Félix.

P.S. 1 – o nome Felix foi tirado do personagem Felix The Cat, de Pat Sullivan e Otto Messimer, um clássico da animação e dos quadrinhos. O título desse post é inspirada na frase do intelectual e acadêmico francês Marcel Brion, que disse: ”Felix não é um gato: ele é O gato.” Uma boa pedida para quem quiser conhecer um pouco do bichano é o álbum lançado pela Opera Graphica Editora.

Gato Felix Classic, da Opera Graphica

P.S 2 – Falando em gatos, minha hq preferida de Sandman é “Sonho de Mil Gatos”, uma história fascinante do mago Neil Gaiman.

capa de Sonho de Mil GAtos

P.S. 3 – pra finalizar – e pra quem adora gatos – sugiro a divertida e inteligente leitura do livro “Akhenaton: a história do homem contada por um gato {traduzido do siamês}”, escrito por Gerard Vicent.

Akhenaton, de Gérard Vicent

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