Rio Salzach, em Salzburgo, Àustria

- Não queres a glória, meu senhor?

Ante a pergunta do etéreo jovem que surgiu ao seu lado como num passe de mágica, o irrequieto Johannes Chrysostomus Wolfgang Gottlieb Mozart sentiu uma neblina tomando conta de sua visão, uma tontura, o chão pareceu fugir-lhe aos pés. Olhou de novo para a estranha figura e por um momento lhe pareceu que ela era transparente.

“Acho que me excedi caminhando”, pensou. “Já estou vendo miragens”.

O mais estranho era que ao movimentar-se, o jovem deixava no ar um aroma doce que quando absorvido suavemente pelas narinas, soava como música dentro da cabeça do compositor.

- És o anjo da morte que veio anunciar o meu fim?

- Não me respondestes, senhor.

- A glória? – Mozart parou de caminhar. De repente, a brisa suave e os murmúrios vindos do Salzach não lhe importavam mais. Diante da beleza do jovem à sua frente, o rio não passava de uma faixa de água correndo entre duas faixas de terra. – Quem não a quer, meu jovem? A questão é que não é fácil domá-la. É uma dama muito arisca, inconsistente, frívola; num momento está ao nosso lado para no momento seguinte nos abandonar.

Parou de falar para sentir novamente o aroma doce que emanava do jovem. Desta vez, chegou a ter a sensação esquisita de ter visto o cheiro dele.

- Sendo assim, a glória que busco agora não é mais essa dama frívola. Eu desisti dela. Ela é vazia, uma coisa oca. Agora, procuro aquela que vive dentro de mim; para assim que descobri-la, repartir seu descobrimento com sabedoria entre as pessoas.

- É para esta descoberta que compareces todos os dias às margens do Salzach, meu senhor?

- O falar manso do Salzach me acalma, limpa minha cabeça de outros pensamentos. Assim, posso me concentrar na minha busca. Mas afinal, quem é você, meu rapaz? Diz a verdade: és ou não o anjo da morte?

- Talvez sua busca esteja chegando ao fim, meu senhor. Vossa sabedoria o conduziu ao local correto, mas ainda precisas desvendar os véus que dividem os mundos.

- Não compreendo suas palavras, meu jovem. – olhou com cuidado para o rapaz e desta vez teve a certeza de que ele era levemente transparente. E foi então que percebeu: através do corpo etéreo do rapaz, ele não via ao longe a silhueta do casario de Salzburgo; havia outra cidade, com edificações estranhas; o céu apresentava uma coloração avermelhada, estranhas folhagens compunham enormes jardins, onde borboletas com asas transparentes faziam evoluções ritmadas. E mais uma vez, Mozart pareceu ver música naqueles movimentos.

- Não procuras inspiração para atender a encomenda de seu amigo Werner?

- Como sabes dessa encomenda? Afinal, meu jovem, quem és e o que queres comigo?

O jovem sorriu ante a insegurança do homem à sua frente.

- Não estás vendo outro mundo através da minha carne, meu senhor? Pois então, olhe-o com mais atenção.

Mozart hesitou. Mas ao fixar o olhar na estranha paisagem que podia ver através do corpo do rapaz, uma coisa estranha começou a acontecer. Diante dos seus olhos, desenrolava-se, como numa peça de teatro, uma história. A cada palavra, a cada acontecimento, seus olhos brilhavam. E havia música. E – desta vez ele teve certeza – ele podia ver a música!

Havia um príncipe. E uma cobra. E três belas mulheres. E um passarinheiro. E uma Rainha da Noite. E uma trama que sofre uma reviravolta dramática. E havia uma flauta.

E ele podia ver a música!

- Então, meu senhor. Podes responder agora à minha primeira indagação?

- S-sim… – gaguejou, emocionado, o compositor. – Eu respondo que sim! Que a quero!

- Então ela é tua, meu senhor. – O jovem se aproximou de Mozart. Segurou-o delicadamente pelos ombros e soprou uma névoa fria e de coloração indefinida em sua face.

Quando despertou do que parecia ter sido um grande e reconfortante sono, Mozart ainda estava ao lado do Salzach, ouvindo seu murmúrio suave, como uma canção de ninar. O jovem etéreo não estava mais ao seu lado. Ele podia lembrar de sua fisionomia, de sua voz e do seu cheiro. Ele podia lembrar do que viu através da transparência do seu corpo.

Ele sorriu.

No caminho de volta para casa, Mozart decidiu parar no Café Tomaselli, na praça Alter Markt. Pediu um café branco e ficou observando o movimento das pessoas. Pensava no acontecido. Foi então que sentiu a face do jovem começar a desvanecer na sua mente, seu cheiro ia desaparecendo aos poucos, sua voz era apenas uma lembrança vaga. Ficou com medo de esquecer tudo. Mas a música ainda estava lá, viva e pulsante na sua cabeça. Decidiu ir rapidamente para casa e tomar notas do que viu e ouviu. A encomenda de seu amigo estaria pronta em breve. Pagou o café e saiu caminhando com pressa para casa.

Seus pensamentos foram interrompidos pela movimentação de um homem alto, de vestes negras, que caminhava em sua direção. Seu rosto quadrado tinha uma expressão simpática, mas Mozart achou suas roupas demasiado escuras. Um escuro que parecia absorver a luz.

- Senhor Wolfgang Mozart, correto? Posso lhe acompanhar?

- Pois não. Em que posso ajuda-lo?

- Eu gostaria de encomendar uma peça. O senhor me foi muito bem recomendado.

- Uma encomenda? Ficarei feliz em atende-lo, mas é necessário lhe avisar que no momento meu tempo está voltado para atender outro pedido. O senhor tem pressa?

- Em absoluto. Na realidade, trabalho para o conde Von Walsegg-Stuppach. Meu senhor deseja homenagear sua bela esposa. Mas há uma condição: ele quer que sua esposa pense que ele foi o compositor da peça. O senhor concordaria com isso? Caso esteja de acordo, ele o recompensaria muito bem.

Mozart parou por um momento. Parecia estranho, mas o aroma que o homem exalava lembrava o do jovem etéreo, só que num bouquet mais denso. Ao inalar aquele cheiro, ele também podia ver uma música se formando. Só que ao contrário da que pulsava na sua cabeça, esta era mais triste, tinha uma coloração sem vida. Na verdade, lembrava muito o tom de negro das vestes do homem.

O homem continuava com sua expressão simpática, irritantemente deslocada naquele rosto quadrado.

Mozart pensou na glória que o jovem etéreo lhe deu. Ma também tinha algo mais. Uma mensagem. Um alerta. Ele não conseguia lembrar. O negro do cheiro da música que emanava do homem embotava seus pensamentos.

- Que tipo de peça seu senhor deseja?

- Um réquiem.

Pesadas nuvens encobriram o sol. Uma sombra deslizou sobre a rua. Mozart sentiu frio. E, por um momento, pareceu que o homem de negro e as sombras eram uma coisa só.

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