Um blog de raiz
20 Nov 2007
1986.
Eu trabalhava num banco chamado Banorte - que foi o primeiro banco do país a interligar suas agências eletrônicamente. O banco tinha um setor de esportes, e possuía times de handebol, volêi, futebol de salão, natação e sei lá mais quantas modalidades.
Os atletas não eram funcionários do Banorte, eram apenas atletas. Eu tinha uma colega do tempo do segundo grau que era da seleção de handebol. Até que um dia eles fizeram uma reinvidicação para serem admitidos como funcionários, pois o que ganhariam de salário seria melhor do que a ajuda de custo que ganhavam como atletas - e isso ajudaria a melhorar o desempenho deles, que em algumas categorias era muito bom.
O banco aceitou. Na época, os bancos estavam implementando o serviço de recepcionistas na entrada das agências, trajando uniformes, que eram o primeiro contato dos clientes ao entrarem. Lembrando que, naquela época, caixa eletrônico era coisa de ficção científica - a agência em questão dispunha de mais de vinte caixas {de carne e osso} para atendimento ao público.
Pois bem: lembram daquela minha colega do segundo grau, que citei lá em cima? O nome dela era Rita. O banco contratou os atletas para várias funções, mas o destino de boa parte DAS atletas foi ficar no hall da agência, com os bracinhos para trás, um sorriso nos lábios e ficar repetindo “bom dia, senhor. Posso ajudar?” e coisas do gênero. Eram as famosas Moças Banorte.
Confesso que quando vi Rita chegando cedo, fardada, com um sorriso nos lábios, tomei um susto {do bem}: nunca a tinha visto sem o uniforme de atleta e ela estava muito chique e bonita na sua farda de Moça Banorte. Mas a minha surpresa não foi só por isso. Meu segundo pensamento foi: que coragem do Banorte!
Rita era negra.
A agência tinha quase duzentos funcionários. Não é necessário fazer um esforço de memória para lembrar que a quantidade de funcionários negros nela era muito pequena. Eu era um deles, Júnior outro, um ou dois caixas e acredito que só. Os demais negros eram funcionários dos serviços gerais, terceirizados - faxina, entregadores de documentos, serventes, copeiros.
Não havia nenhuma funcionária negra. Nem na minha agência, nem em outras duas agências do banorte que eu conhecia.
Pois bem: Rita se postou com elegância no hall da agência, junto a sua colega loira e começou seu trabalho.
Algumas semanas depois, estávamos eu, Júnior e nosso chefe trabalhando, quando um cliente, vindo da gerência, perguntou quem era Rita. Nosso chefe, solícito, apontou:
- É aquela moreninha ali na entrada.
O cliente agradeceu e foi ao encontro dela. Júnior olhou pro subchefe e disse: “Moreninha não, ela é negra.” No que eu complementei: “Isso mesmo, chefe. Ela é negra”
- Não, que é isso, gente…não falem isso da menina não… que coisa - respondeu ele, todo vermelho e constrangido, nos repreendendo como se estivéssemos ofendendo Rita por chamá-la de negra.
Júnior, que era mais desbocado, continuou criticando o chefe; lembro que mais alguém se meteu na conversa e concordou com o chefe, quase dizendo que chamar uma pessoa de “negra” era ofensivo. Júnior, por fim, disse: “isso é preconceito racial.”
Alguém soltou: “não tem preconceito racial no Brasil.” A coisa parecia que ia terminar em briga.
Prá coisa não se esticar demais, Júnior, que além de desbocado também era muito bem humorado, disse que ia resolver a situação: chamou Rita para perguntar se ela era moreninha ou negra. O chefe ficou procurando um buraco prá se esconder, o outro que apoiou saiu de fininho. Rita chegou, escutou a história, e, exibindo um belo sorriso, respondeu: “Negra e linda, com muito orgulho”. E voltou ao seu posto, sorrindo como sempre.
O chefe ainda tentou repetir o que disse antes. “não, que é isso, menina…”. Júnior soltou aquela gargalhada e soltou um “eu não disse?”.
Foi a primeira vez que eu vi um negro se expressar assim, altivo, orgulhoso de sua raça; isso foi, para mim, um exemplo de afirmação que me deixou emocionado e que me fez relembrar de outros negros que conheci, que baixavam a cabeça e aceitavam brincadeiras racistas, humilhações e repetiam o preconceito com um sorriso nos lábios. Só anos depois foi que percebi que eles não tinham culpa; os dias eram assim, o sistema era assim, poucos tinham a coragem para se afirmar. O preconceito estava enraizado em nossa cultura, no dia-a-dia, nas piadas e brincadeiras; como me disse um amigo uma vez, era tudo sem maldade. Lembro da vez que uma vizinha, ao me ver bem queimado de sol, disse: “deixa mais de ir a praia, você é tão bonitinho, mas se queimando assim vai acabar virando um negro”. Eu tinha uns 13 anos e durante algum tempo isso me assombrou.
Mas foi depois daquela resposta e daquele sorriso de Rita que deixei de preencher a opção “pardo” em formulários de pesquisa, IBGE e similares - embora muitos me digam que eu não sou negro, sou moreno claro, sou pardo, sou sei lá o que. De vez em quando respondo com humor: “pô, mas lá nos EUA eu seria o maior negão” -
A última vez que vi Rita foi no aniversário de um amigo em comum, faz uns quatro ou cinco anos; ela estava com seus três filhos {se não me engano} e continuava casada com o galegão Fábio. E fiquei feliz em saber que ela ainda era gerente geral da agência para onde fora transferida pouco tempo depois de começar como Moça Banorte - caraca, isso já faz quase vinte anos!
Hoje, eu lembrei de Rita.
Hoje é dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra.
E aí, como está a sua?
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3 comentários para "Consciência Negra ou O dia em que deixei de ser pardo"
Esse tipo de texto faz a diferença no teu blog.
Manda bala, digo, letras!
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Bah, esse texto foi muito bom!
E essa Rita, capaz de nem ter percebido de quão evoluída era sua atitude, mas querendo ou não ela foi um exemplo para aquela época!
O importante é saber sua procedência e ter orgulho disso.
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Olá, Fanny.
Realmente, a Rita era {e é} uma pessoa especial, que sempre teve uma Atitude positiva diante da barra de ser negro num país onde as pessoas {ainda} teimam em dizer que não existe preconceito racial. Temos sim, e pior, porque junto vem o preconceito social. Mas acho que as coisas melhoraram um pouco hoje…
grande abraço
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