Uma das coisas que mais gosto no meu trabalho é a cara que a pessoa faz quando descobre o que vai acontecer com ela. Quando isso acontece, pelo menos o começo do meu dia está salvo. Dá para perceber a despedida surgindo, a incredulidade dando lugar à resignação, o grande vazio da perda se formando. Na maioria das vezes é assim; claro que de vez em quando há desespero, tentativas de agressão e de fuga. Nem pisco nesses casos. Vou direto ao assunto e pronto.

Gosto mais dos que se resignam, batem um papo como se para ganhar um tempo, para tentar entender. Como agora. Os olhos castanhos claros parece que me fitam a uma eternidade; o lábio inferior treme suavemente; as lágrimas que começam a surgir nos olhos encontram o sol e criam aquele brilho estrelado, como nos filmes…só faltou aquele barulhinho…. “plim”! Apesar de não-dito, o “porquê?” é palpável.

Ele me pergunta se pode fazer um pedido. Claro que eu digo que sim. Me pede para que aconteça num local discreto, longe de todos. Então eu lembrei de um lugar onde nos sentiríamos num deserto. Ele agradeceu. O silêncio tomou conta da nossa partida.

Caminhamos devagar – mais um de seus pedidos, pois queria observar pela última vez a vida. De vez em quando, parava repentinamente. Eu seguia o seu olhar e lá estava: um baobá, imponente, sábio e velho. “Nunca tinha percebido como ele é bonito…”, sussurou. Outro olhar, outro lado. Um prédio antigo, estilo clássico, pintado com cores alegres – por um desses projetos de revitalização urbana. “Veja só…agora não acho esse prédio tão museu assim…”, disse, um breve sorriso surgindo, para depois desaparecer.

Foi assim toda a caminhada.

Chegamos, sentamos lado a lado, mudos por alguns instantes.

É nessa hora que chegam os clichês: tanto ainda por fazer, se não tivesse dito aquilo à ela, se pudesse voltar no tempo…aí vem aquele olhar suplicando uma nova chance. Nem pisco. Minha distância incomoda, não digo nada, não mudo minha expressão, não sorrio, não choro. Apenas olho.

Quando começa o crepúsculo, vem o silêncio final. Sem estardalhaços, limpo, objetivo.

Pronto. Mas uma missão cumprida. Agora, tenho que ir, ainda há mais uma pessoa para hoje, segundo a informação que chega no meu smartphone.

Espero que venha mais uma cara engraçada para fechar o dia com chave de ouro.

Sphere: Related Content