Tropa de Elite

 

Assim como o Cardoso, não entrei no hype da Tropa de Elite. Aliás, não costumo seguir hypes; e quanto mais hype for, eu corro prá longe até a poeira assentar. Tinha decidido não assistir tão cedo o filme – meu pai até quis me emprestar o Tropa jacksparrow dele, mas declinei.

Foi quando um amigo me falou: “ó, tem que ver porque tem relação com aquilo que tu desenvolveu sobre a formação do herói nacional na tua dissertação”. Aí fiquei interessado. Como o filme ainda não tinha estreado, corri e peguei o Tropa monkeydruffy do meu pai e assisti.

Caraca!! Gostei!!

Quando estreou, fui correndo ver no cinema. É um puta filme, bem dirigido, bem montado e com excelentes atuações. Mas o motivo deste post é justamente analisar a discussão que se iniciou (entre tantas outras) sobre o Capitão Nascimento ter se tornado o modelo de herói necessário para a sociedade brasileira. E isso é fascinante, como diria aquele velho orelhudo.

Senta que lá vem história: o que danado é um Herói?

Segundo a definição do dicionário Aurélio, “o herói é um homem extraordinário que se destaca por seus feitos guerreiros, por seu valor ou magnanimidade”. Paul Radin, citado por Martin Feijó em O que é herói, da Brasiliense (1984), define quatro tipos de heróis: fundador, guerreiro (ou homem-deus), trapaceiro e gêmeos.

Segundo a estrutura clássica da jornada do herói relatada por JOSEPH CAMPBELL – simplesmente o homem que George Lucas consultou para estruturar a saga Star Wars - o herói fundador é aquele que, após viver diversas aventuras num mundo que lhe é estranho retorna ao seu lugar de origem trazendo um bem (o elixir), que dividirá com seu povo, instaurando uma nova era de prosperidade.

Já o guerreiro é o tipo mais comum nas narrativas.Geralmente, ele é o homem-deus, o ser dotado de poderes sobre-humanos que luta pelo seu povo.

Esta divisão não é rígida e e podemos identificar heróis híbridos como o guerreiro-fundador – e então, onde vocês acham que se encaixa o nosso herói Nascimento?

O conceito de herói também foi utilizado com freqüência para classificar personagens reais que em contextos sócio-históricos específicos “fundaram” nações e/ou “libertaram” povos do cativeiro – Fidel Castro é um bom exemplo.

Pois bem: numa visão mais à esquerda, temos Bertold Brecht, dramaturgo alemão que disse certa vez: “feliz o país que não precisa de heróis”. Segundo ele, o herói toma prá si aquilo que deveria ser feito pelo coletivo, pela sociedade; e leva à idolatria do indivíduo, ao messianismo.

O dramaturgo brasileiro Augusto Boal responde: não somos um povo feliz, por isso precisamos de heróis.

Essa discussão não termina nunca. Precisamos de heróis ou não? Qual o sentido e a função de um herói numa sociedade como a nossa?

É aí que entra o nosso personagem principal.

Capitão Nascimento é o cara…ou não (licença, Caetano)

O que acontece agora com a eleição do Capitão Nascimento ao posto de herói nacional da vez tem que ser relacionada ao momento atual em que vivemos. Impossível não fazer relação com dois personagens de quadrinhos – e desculpem se abuso deles por aqui, mas é a minha especialidade. O primeiro – e mais emblemático – é o Batman da série Cavaleiro das Trevas: numa cidade (estado, país…whatever…= licença, Jovem Nerd) tomada pela violência e que oprime os cidadãos de bem, um herói ressurge e, com pé na porta e tapa na cara, coloca as coisas no lugar – e se a justiça acha ruim, a população bate palmas; o outro é Wolverine, aquele baixinho invocado que quando bota prá fuder, todo mundo urra de prazer – psicanalistas, ajuda, por favor…

O Nascimento é isso: numa sociedade assustada e encurralada pela bandidagem, além de um poder político elitista e corrupto e uma polícia igualmente ineficiente, onde tudo parecia estar perdido, surge um herói que coloca os vilões nos seus devidos lugares: na cadeia ou na cova - bandido bom é bandido morto.

Claro que a sociedade civil organizada, responsável, cristã e legalista rejeita essa exaltação: o que o Nascimento faz não é o caminho correto. Não é torturando, matando primeiro e perguntando depois que as coisas vão se resolver.

Mas o povão não tá nem aí: tem que botar prá fuder mesmo. Todos esses anos consumindo enlatado americano com chucknorris, schwarzeneggers, stallones e bauers fazendo a mesma coisa não foram em vão, criaram na cabeça de todo mundo que se o bandido é mau feito o Pica-Pau tem mais é que tomar tiro na cara, os fins justificam os meios. É o primeiro sentimento que vem à cabeça de muita gente que presencia a covardia dos bandidos, a frieza e barbárie de suas ações: tem que botar prá fuder, tem que ser olho por olho e dente por dente; tem que ter pena de morte…

E então aparece um personagem brasileiro, seguindo os mesmos moldes dos personagens truculentos citados acima; mas ele surge num cenário familiar, num local comum a todas as grandes cidades brasileiras, facilmente reconhecível. Aí surge o primeiro elo com o espectador: o filme cria uma relação de identidade com eles.

Segundo elo: apesar de ser um personagem fictício, ele é baseado numa pessoa real, de uma instituição real, que todo mundo vê pelos telejornais combatendo o tráfico nos morros; não é um agente da UCT ianque, enfrentando terroristas que querem derrubar a civilização judaicocristãocidental. O cara tá aqui perto! Aí vem a esperança de que alguns capitães Nascimento da vida real possam botar ordem nessa zona, agindo daquele jeito, porque tratar bandido com moleza e diálogo não resolve.

É aí que, por não ser um povo feliz, um herói se faz necessário, a fim de resgatar a sociedade da barbárie, trazendo uma nova era de paz e modernidade. E o Capitão Nascimento é o molde ideal para esse herói - segundo as massas.

Será?

O Capitão Nascimento é um herói renunciador: tenha medo, muito medo!!!!!!!!!!

Chegando aos finalmentes…

Invoco, agora, a brilhante análise do antropólogo Roberto DaMatta, em sua obra-prima Carnavais, Malandros e Heróis, de 1979. Ao analisar as formas rituais básicas da sociedade brasileira – carnavais, paradas militares e procissões -, ele constrói um triângulo de heróis, cada um relacionado a um ritual e resultado da nossa composição identitária – europeu, negro, índio – cada um com sua característica própria:

Procissões = santo = romeiros = peregrinos = renunciadores

Carnavais = malandros = seres marginais e/ou liminais

Paradas = Caxias = “caxias” = autoridades = leis = quadrados

A trajetória de personagens como o Capitão Nascimento nos leva a classificá-los como o herói renunciador, aquele que se situa entre o caxias e o malandro, conforme definido por Da Matta:

“(…) aquele que, por meio de instrumentos, modos diversos e em níveis diferentes, rejeita o mundo social tal como ele é e se apresenta. Assim, se o caxias reforça a ordem social e deseja mantê-la como ela é, e se o malandro, enquanto personagem intersticial, não deseja modificá-lo, o renunciador deseja realmente uma outra realidade. (…) Em vez de discursar ou escrever, cantar e dançar, o renunciador reza e caminha, procurando a terra da promissão, onde os homens finalmente poderão realizar seus ideais de justiça e paz social.” (p. 205-206)

Porém, nessa busca pelo paraíso na Terra, o herói renunciador deixa de lado suas vaidades, seu egoísmo e seu orgulho, abandonando o mundo material, vivendo para o seu grupo. O resultado desse percurso é sua individualização. Na sua trajetória em busca de um mundo pacífico e do bem estar de todos os homens, o herói renunciador termina por criar um regime totalitário para que sua visão de mundo seja concretizada. Isso lembra alguma coisa?

Sei não, mas acho que já vivenciamos esta história e não faz muito tempo. A partir do momento em que a força voltar a se tornar solução para nossos problemas, estaremos perdidos.

O país não precisa de salvadores, nem de messias, nem de idolos, e muito menos de heróis…

e por mais que a gente ache legal nos quadrinhos e no cinema um cara – ou vários deles – tomar prá si a responsabilidade de resolver os problemas por nós, na vida real o buraco é mais embaixo.

Essa discussão em cima do filme, dos seus efeitos, vai rolar ainda por muito tempo, gerando coisas como tentativas de censura, protestos da polícia, protestos das organizações não-governamentais, whatever… e vem uma série de tv aí, prá perpetuar ainda mais as discussões.

Preocupante mesmo é o efeito na massa. Os próximos capítulos prometem ser fascinantes!!!!!!!!!!

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